Greve de fome de familiares de presos políticos na Venezuela pressiona votação da lei de anistia e pede libertação de 644 detidos em Caracas

Familiares entraram em greve de fome para exigir celeridade na aprovação da lei de anistia, enquanto ONG contabiliza centenas ainda presos

Cerca de dez mulheres, entre mães e esposas, deitaram-se em fila na entrada da prisão conhecida como Zona 7, em Caracas, e iniciaram uma greve de fome neste sábado para pressionar por mais libertações.

O protesto ocorre após o novo adiamento da votação final da lei de anistia, proposta pela presidente interina Delcy Rodríguez, que promete abranger duas décadas e meia de casos ligados ao chavismo.

Durante a madrugada, 17 presos políticos foram libertados, mas, segundo a ONG Foro Penal, 644 ainda permanecem detidos, conforme informação divulgada pelo g1

Protesto e apelo das famílias

As mulheres se posicionaram na entrada da Zona 7, local onde familiares acampam há mais de um mês, e deixaram uma lista manuscrita com os nomes das grevistas.

Em reação à demora na aprovação da proposta, Evelin Quiaro, 46 anos, mãe de um detido desde novembro de 2025, afirmou, “Nós exigimos com isso que já se concretize e seja real a libertação de todos. É justo, é justo.”

Quiaro relatou que comeu pela última vez após a 1h da manhã, e falou, “Realmente não estamos preparadas, nunca fiz isso na vida”, sobre a decisão de iniciar a greve.

Outra participante, que preferiu manter o anonimato, resumiu a estratégia, “Dormir acalma a fome”, e explicou que muitas começaram o protesto dormindo para suportar o primeiro dia.

Libertações e números

Na madrugada em que a greve começou, 17 detidos deixaram as celas da Polícia Nacional, conhecidas como Zona 7. Entre os libertados estava José Elías Torres, secretário-geral da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela, segundo o Comitê para a Liberdade dos Presos Políticos na rede X.

A ONG Foro Penal informou que, desde 8 de janeiro, 431 presos políticos obtiveram liberdade condicional, e que ainda há 644 detidos classificados como presos políticos.

Os familiares afirmam que a lista de libertações prometidas não avançou no ritmo esperado e que a lei de anistia é vista como caminho para a libertação ampla de centenas de detidos.

Contexto político e adiamentos

A presidente interina Delcy Rodríguez propôs a lei de anistia em 30 de janeiro. A proposta, em teoria, abrangeria 27 anos do chavismo e poderia resultar na liberdade plena de centenas de detidos.

O texto, porém, teve a votação adiada duas vezes por divergências entre deputados sobre o alcance da anistia e o papel do Poder Judiciário em sua aplicação.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, esteve próximo às celas em 6 de fevereiro e disse, “Vamos reparar todos os erros que tenham sido cometidos”, além de adiantar que a aprovação ocorreria em 10 de fevereiro.

Com o impasse, a próxima sessão legislativa foi marcada para 19 de fevereiro, e as famílias dizem que medidas mais duras, como a greve de fome, são necessárias para forçar respostas concretas.

Reações e próximos passos

Entre os que iniciaram a greve está Sachare Torrez, de 23 anos, que afirmou, “O que estamos pedindo com isso é que todos sejam libertados, como nos foi prometido”.

A grevista Evelin Quiaro descreveu a ação como uma “medida drástica” e disse, “Com isso é óbvio que vamos nos esgotar muito mais (…) mas já é uma medida drástica que consideramos necessária para acabar com tudo isso”.

Enquanto as famílias mantêm o acampamento e ampliam a pressão com jejum, o Parlamento tenta conciliar diferenças internas para levar a votação adiante. A expectativa das famílias é que a aprovação da lei de anistia resulte na libertação ampla dos presos políticos em todo o país.

Fontes citadas na reportagem incluem levantamento da ONG Foro Penal e relatos de familiares divulgados ao g1