Greve de fome por presos políticos na Venezuela: familiares pressionam pelo avanço da lei de anistia, 644 seguem detidos e libertações aumentam tensão em Caracas
Familiares de presos políticos na Venezuela iniciam jejum em frente à Zona 7 para exigir celeridade na promessa de libertação, após novo adiamento da votação da anistia
Cerca de dez mulheres deitaram em fila na entrada da Zona 7, em Caracas, e iniciaram neste sábado uma greve de fome, como forma de pressão para acelerar a libertação de detidos por motivos políticos.
O protesto ocorre depois de um novo adiamento da votação da lei de anistia, cuja aprovação foi prometida pelo governo interino e que, em tese, poderia beneficiar centenas de presos políticos.
Durante a madrugada, 17 presos políticos foram libertados das celas da Polícia Nacional conhecidas como Zona 7, mas familiares dizem que a resposta oficial ainda é insuficiente, e o clima entre os acampados é de desgaste e urgência, conforme informação divulgada pelo g1.
Greve de fome e rotina no acampamento
As mulheres, em sua maioria mães e esposas, montaram acampamento há mais de um mês em frente à prisão, e desta vez adotaram o jejum para aumentar a pressão. Elas deixaram uma lista com os nomes das grevistas escrita à mão, e algumas, cansadas, chegaram a dormir ao amanhecer.
Evelin Quiaro, 46 anos, mãe de um detido, declarou, “Nós exigimos com isso que já se concretize e seja real a libertação de todos. É justo, é justo.” Quiaro disse ainda, “Realmente não estamos preparadas, nunca fiz isso na vida”, ao relatar que comeu pela última vez depois da 1h da manhã, biscoitos com presunto.
O que diz a lei de anistia e os impasses no Parlamento
A proposta de lei de anistia, apresentada em 30 de janeiro pela presidente interina Delcy Rodríguez, prevê, em teoria, abranger os 27 anos do chavismo, e espera-se que resulte na liberdade plena de centenas de detidos.
No entanto, a votação final foi adiada duas vezes por divergências entre deputados sobre o alcance da anistia e o papel do Poder Judiciário em sua aplicação. A próxima sessão legislativa foi marcada para 19 de fevereiro, e familiares e ativistas cobram urgência.
Números, libertações e reivindicações
De acordo com a ONG Foro Penal, “desde 8 de janeiro 431 presos políticos obtiveram liberdade condicional e 644 permanecem na prisão.” O dado é central para as reivindicações das famílias, que cobram a libertação plena e imediata de todos os detidos por motivos políticos.
Entre os libertados na madrugada estava José Elías Torres, secretário-geral da Confederação dos Trabalhadores da Venezuela, que estava preso desde novembro sem ordem judicial, segundo o Comitê para a Liberdade dos Presos Políticos na rede X.
As grevistas afirmam que medidas drásticas são necessárias para romper o impasse, e descrevem a ação como uma tentativa de obter respostas concretas, depois de promessas de autoridades, incluindo a declaração do presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, de que “vamos reparar todos os erros que tenham sido cometidos”, e de que a lei seria aprovada.
Próximos passos e cenário político
O adiamento da votação e as divergências parlamentares mantêm a pressão nas ruas, com familiares intensificando protestos, inclusive com correntes humanas junto à entrada da prisão. A greve de fome, dizem eles, é uma medida extrema para forçar uma solução.
Analistas apontam que, mesmo com libertações pontuais, o número de presos políticos na Venezuela continua sendo foco de críticas internacionais e motivo de tensão interna, especialmente enquanto a lei de anistia enfrenta resistência e relutas sobre seu alcance e critérios de aplicação.
As famílias afirmam que permanecerão mobilizadas até que haja garantias claras e imediatas de libertação, e acompanham de perto a agenda da Assembleia Nacional para a sessão prevista em 19 de fevereiro, como marco decisivo para a tramitação da anistia.