Guerra e alta de impostos empurram pequenas empresas russas ao fechamento, IVA subiu 2%, limites caíram e donos de padarias e salões relatam falências e queda de vendas

Reforma tributária reduz limite de isenção de 60 para 20 milhões de rublos, com meta de 10 milhões até 2028, e empresários relatam custos maiores, queda de demanda e fechamento de lojas

Pequenas empresas em toda a Rússia dizem sentir o impacto direto das mudanças fiscais e da pressão econômica gerada pela guerra, com relatos de fechamento e corte de operações.

Donos de padarias, salões de beleza e confeitarias relatam aumento de custos, queda de clientes e a necessidade de contratar contadores, mesmo em negócios antes elegíveis a regimes simplificados.

As informações e dados desta reportagem foram reunidos com base em reportagem da Associated Press, conforme informação divulgada pelo g1.

O que mudou na tributação

O governo elevou o imposto sobre valor agregado, o IVA, em 2%, e reduziu drasticamente os limites de faturamento que isentavam pequenas empresas dessa cobrança.

O limite para obrigar empresas a pagar o IVA caiu de 60 milhões de rublos para 20 milhões de rublos de receita anual, e a intenção é fazer esse teto chegar a 10 milhões de rublos até 2028.

Além disso, quem passar do limite de 20 milhões de rublos precisará pagar pelo menos 6% sobre a receita e pelo menos 5% de IVA, mudanças que transferem parte da arrecadação para pequenas e médias empresas.

Impacto direto nos negócios

Empresários relatam queda constante na demanda por bens e serviços, e fornecedores que repassaram custos fizeram com que despesas aumentassem bem além dos 2% do IVA.

Proprietários de redes locais dizem ter visto custos como aluguel, suprimentos, segurança e serviços bancários subirem até 30%, segundo relatos de empreendedoras do setor de beleza.

Muitos afirmam que a nova carga fiscal tornou inviável continuar no regime de patentes, que antes permitia pagamentos anuais fixos, e que agora os custos administrativos também aumentaram, com necessidade de contabilidade.

Casos e reações de empresários

O caso que ganhou atenção pública foi o da padaria Mashenka, cuja proprietária e dono tiveram visibilidade após questionamento direto ao presidente da Rússia.

O dono da padaria, Denis Maksimov, alertou para os efeitos das reformas, e disse, conforme a reportagem original, “Entendemos muito bem que não é uma situação fácil para o país. Entendemos que o aumento de impostos é necessário”, e acrescentou, “Para ser franco, estamos olhando para o futuro sem otimismo. Muitas empresas vão fechar.”

A presença do caso no debate público rendeu à Mashenka medidas propostas pelo governo local para isentar temporariamente a empresa de alguns tributos, mas autoridades não definiram prazos para mudanças amplas.

Donas de salões e confeitarias relataram decisões difíceis, incluindo fechamento e venda de unidades. Como disseram empresárias que encerraram negócios, “Foi uma decisão incrivelmente difícil, como amputar um membro. Porque morávamos lá, era a nossa vida, 24 horas por dia, 7 dias por semana”.

Visão do setor e riscos à economia

Representantes do setor e associações locais apontam que parte do mercado já demonstra sinais de colapso, com lojas vazias em avenidas comerciais e queda nas vendas em várias cidades.

Lyalya Sadykova, presidente da Associação de Empresas do Setor de Beleza, afirmou que cerca de 10% dos estabelecimentos do setor em São Petersburgo fecharam e outros 10% foram vendidos em dezembro e janeiro, e alertou, “Acho que haverá falências e uma debandada em massa do mercado, porque agora me parece que nem todos fizeram as contas e entenderam a situação.”

Analistas ressaltam que pequenas e médias empresas representam pouco mais de 20% da economia russa, e que ampliar a aplicação do IVA sobre esse segmento é uma forma de o governo buscar receitas mais estáveis diante da queda da renda do petróleo e do aumento do déficit.

Chris Weafer, CEO da consultoria Macro-Advisory Ltd, avaliou que se trata de “uma estratégia deliberada do Ministério das Finanças para criar fontes de renda mais estáveis e previsíveis” em tempo de guerra.

O que os empresários dizem esperar

Proprietários que ainda resistem dizem que esperam medidas pontuais que evitem fechamentos em massa, ou algum tipo de alívio temporário, mas muitos não acreditam que o regime tributário será revertido rapidamente.

Alguns empreendedores conseguiram visibilidade e apoio pontual, mas campanhas online, como a intitulada “Nós Somos Mashenka”, mostram que a grande maioria dos afetados não conta com amparo e teme pela continuidade dos seus negócios.

Donos e donas de pequenos negócios afirmam que enfrentarão os próximos meses com receio, e que a combinação de guerra, sanções e novas taxas pode reduzir ainda mais a capacidade de recuperação do setor quando o conflito terminar.

Esta reportagem baseou-se em levantamento e entrevistas compiladas pela Associated Press, conforme informação divulgada pelo g1.