Guerra no Oriente Médio pressiona dólar e petróleo e pode limitar intensidade e duração dos cortes da Selic no Brasil, entenda os riscos
Como a escalada do conflito eleva petróleo e dólar, afeta projeções de inflação e pode obrigar o Copom a frear ou postergar cortes da Selic
A escalada de confrontos no Oriente Médio pressionou o preço do petróleo e a cotação do dólar, gerando preocupação sobre efeitos mais persistentes na inflação brasileira.
Essa mudança de preços relativos, entre commodities e moeda, pode contaminar não só preços correntes, mas também as projeções do mercado e da autoridade monetária para a inflação nos próximos anos.
O Comitê de Política Monetária olha para frente, porque suas decisões demoram de seis a 18 meses para ter impacto pleno na economia, e hoje o Banco Central busca alcançar a “meta central de inflação de 3% em doze meses até setembro de 2027”.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que petróleo e dólar importam para a política monetária
O aumento do petróleo eleva custos de energia e combustíveis, enquanto a valorização do dólar torna importações mais caras, ambos pressionando a inflação.
O Copom, do Banco Central, lembra que “apenas reage ao cenário da economia na fixação dos juros” e, como observou na ata de janeiro, “Elevações das tensões geopolíticas e seus desdobramentos seguem sendo monitorados, porém no contexto atual os preços das principais commodities permaneceram contidos, e as condições financeiras, favoráveis”, dizia o Copom, antes da eclosão da guerra no Oriente Médio.
O que muda nas expectativas sobre os cortes da Selic
Antes do conflito, o mercado projetava que a “taxa Selic começaria a ser reduzida neste mês, passando de 15% para 14,5% ao ano”, e que ela continuaria caindo, “fechando 2026 e 2027 em 12% e 10,5% ao ano, respectivamente”.
Analistas dizem que, se a guerra se prolongar, o impacto inflacionário via petróleo e dólar pode ser duradouro e “limitar a intensidade e o ritmo dos cortes na taxa de juros no país”. Nesse cenário, o Copom pode postergar o início do afrouxamento ou reduzir o ritmo de corte.
O que dizem os analistas consultados
Rafaela Vitoria, economista-chefe do banco Inter, afirma que o aumento recente do petróleo não gera necessidade imediata de reajuste de combustíveis pela Petrobras, e que, com o atual patamar do petróleo, um eventual reajuste próximo de 10% teria impacto limitado na inflação.
Ela ressalta que a economia vive demanda mais fraca, com desaceleração do PIB, e por isso um aumento da gasolina não teria caráter estrutural para a taxa de juros, mantendo sua previsão de corte da Selic para 14,5% ao ano, em meados de março. “Mas, dependendo da magnitude desse impacto [da alta do preço do petróleo], você pode ter uma cautela um pouco maior pelo Copom de, ou postergar esse início de corte de juros, ou começar com um ritmo um pouco mais fraco, de 25 pontos [neste mês]”, afirmou Rafaela Vitoria, do banco Inter.
Leonardo Costa, economista do ASA, chamou atenção para a dependência do efeito da duração e intensidade do conflito, e disse que “No Brasil, a política de suavização de preços da Petrobras tende a retardar o repasse da alta internacional para combustíveis, com o diesel devendo subir antes da gasolina, dado o maior peso das importações e a defasagem acumulada”.
Em termos de inflação, ele destacou que “um aumento de 10% na gasolina adiciona cerca de 0,20% a 0,25% ao IPCA anual”, enquanto o diesel tem impacto mais indireto, via custos e cadeia produtiva, e que a persistência de preço do petróleo mais elevado pode elevar a projeção de inflação doméstica.
Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, afirma que, por ora, o conflito não deve alterar o plano do BC de iniciar cortes em março, mas adverte que “No entanto, caso a crise se prolongue, seus desdobramentos podem interromper a sequência de valorização do real [queda do dólar] e provocar uma mudança no patamar dos preços do petróleo, fatores que tenderiam a limitar a magnitude do ciclo de flexibilização monetária [corte dos juros]. Esse cenário já começa a se refletir na curva de juros, com a elevação do prêmio na parte intermediária”.
Impactos práticos para os consumidores e para o mercado
Se o preço do petróleo seguir elevado por semanas ou meses, repasses para combustíveis podem ocorrer, inicialmente no diesel e depois na gasolina, dependendo da política de preços da Petrobras e da defasagem acumulada.
Para a política monetária, a combinação de petróleo mais caro e dólar alto pode forçar o Banco Central a ajustar projeções de inflação, tornando o ciclo de cortes da Selic mais curto ou mais lento do que o mercado imaginava.
Em suma, a escalada no Oriente Médio aumentou a incerteza, e a evolução dos preços do petróleo e do dólar será determinante para a intensidade e duração dos cortes da Selic, enquanto o Banco Central acompanhará os desdobramentos para reagir ao novo cenário econômico.