Homem de Guiné relata busca desesperada por filhos vítimas de tráfico humano ligado a QNET, participa de operação da Interpol em Serra Leoa e denuncia impunidade
Pai viaja até Makeni, acompanha batida policial que resgatou dezenas, encontra pistas sobre os filhos recrutados por esquema que usa QNET como fachada e enfrenta a falta de condenações
Foday Musa não vê os filhos há dois anos e ouviu pela última vez a voz do filho em uma mensagem de 76 segundos que o deixou destroçado.
Ele relata que ‘Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los’, e viajou até Serra Leoa na esperança de reencontrá‑los.
O caso ganhou atenção após operações policiais em Makeni, mas a busca esbarra na complexidade das redes e na baixa taxa de condenações na região, conforme informação divulgada pelo g1.
Operação em Makeni e o encontro com vítimas
A unidade policial especializada, com apoio da Interpol, realizou batidas em imóveis de Makeni onde traficantes mantinham jovens em cativeiro.
Durante uma ação, a polícia encontrou quartos com bolsas espalhadas pelo chão e entre 10 e 15 pessoas dormindo em cada aposento, alguns com apenas 14 anos.
Segundo a equipe, muitos dos jovens eram guineanos, e 19 deles foram levados de volta para a Guiné após triagem, enquanto a presença dos filhos de Musa foi confirmada apenas por um relato que dizia que eles haviam estado no local na semana anterior.
O chefe de investigações da unidade contra o tráfico, Mahmou Conteh, afirmou que ‘É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais’, descrevendo como os grupos se deslocam entre países.
Como o esquema usa a marca QNET como fachada
O golpe aproveita o nome da empresa QNET, originalmente uma companhia de venda direta de Hong Kong, para atrair candidatos com promessas de emprego no exterior.
Recrutadores exigem pagamentos altos, frequentemente alegando taxas administrativas, e prometem vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e vários países europeus.
Após o pagamento, as vítimas são levadas a países vizinhos, mantidas em cativeiro e pressionadas a recrutar outras pessoas para liberar a viagem, mas o trabalho nunca se concretiza.
A própria QNET divulgou campanhas regionais com o slogan ‘QNET contra os golpes’ e nega vínculos com o tráfico, enquanto autoridades alertam que gangues se apropriam da marca para encobrir atividades criminosas.
Depoimentos das vítimas, vergonha e sobrevivência forçada
Uma jovem identificada como Aminata contou que pagou cerca de US$ 1 mil para participar de um curso prometido antes do voo para os Estados Unidos, e acabou retida em Freetown por quase um ano.
Ela relatou que, no início, os recrutadores davam comida e cuidados, mas depois passaram a explorar sexualmente as mulheres, e que precisou ‘vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter’.
Aminata disse ainda que os traficantes forneciam passaportes e documentos falsos, tiravam fotos e davam um número internacional para simular que a vítima já estava no exterior, tudo para convencer familiares e amigos a enviar mais pessoas ao esquema.
Musa, por sua vez, entregou aos traficantes cerca de US$ 25 mil, entre taxas de inscrição e pagamentos para tentar a libertação dos filhos, e descreve sua condição emocional com frases como ‘Meu coração está destruído’ e ‘É muito difícil ouvi‑lo, Escutar sua voz dói’.
Impunidade, prisões e estatísticas
A polícia de Serra Leoa informou ter realizado mais de 20 batidas no ano passado, resgatando centenas de vítimas e detendo 12 supostos traficantes em operações acompanhadas pela Interpol.
No entanto, a conversão de prisões em condenações é rara, e as autoridades da região enfrentam recursos limitados para investigar redes transnacionais.
Relatos oficiais apontam para a dificuldade de responsabilizar os responsáveis, e mesmo após a lei contra o tráfico em Serra Leoa, a punição é insuficiente.
Em relação à aplicação da lei, dados citados indicam que ‘entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime’, o que evidencia o desafio da impunidade.
Musa voltou à Guiné sem localizar os filhos no fim de setembro, e recebeu informações de que a filha voltou a outro local na Guiné e não quis contato com o pai, situação que mostra a vergonha e o estigma enfrentados por muitas vítimas.
O que as autoridades e famílias exigem
Investigações pedem mais cooperação regional, controle nas fronteiras e campanhas de prevenção para alertar populações vulneráveis sobre o uso da marca QNET por criminosos.
Famílias como a de Musa cobram respostas rápidas, rastreamento internacional e um reforço nas condenações para interromper os circuitos de exploração.
Enquanto isso, vítimas e ex‑reféns relatam traumas, exclusão social e dificuldades para reintegrar‑se, e o apelo de pais como Musa segue sendo simples e urgente, ver os filhos voltar para casa, em segurança.