quinta-feira, junho 4, 2026

Homens filmam mulheres à noite e lucram na web, investigação da BBC identifica quase 50 vítimas, mais de 65 canais e bilhões de visualizações em YouTube, TikTok e Facebook

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Homens filmam mulheres à noite em grandes cidades, vídeos viralizam e criadores transformam imagens em renda, deixando vítimas com medo e sem respostas legais claras

Uma investigação internacional expôs uma rede de homens que grava mulheres à noite em ruas e casas noturnas e publica os vídeos na internet, frequentemente sem o conhecimento ou consentimento das vítimas.

Os conteúdos aparecem como “caminhadas” ou “conteúdo de vida noturna” em plataformas como YouTube, TikTok, Facebook e Instagram, e, segundo especialistas, podem gerar valores expressivos para quem os publica.

Os dados reunidos pela reportagem mostram que a prática atingiu centenas de vídeos e deixou mulheres assombradas pela circulação das imagens, conforme informação divulgada pelo G1 a partir de investigação da BBC.

Como a rede atua e quem são os autores

Equipes da investigação observaram homens filmando mulheres em saídas noturnas em cidades como Manchester, Londres, Oslo, Miami e Bangkok, com foco quase exclusivo em jovens de vestidos e saias.

A BBC localizou quase 50 mulheres filmadas e identificou mais de 65 canais que publicam esse tipo de conteúdo, segundo os dados da investigação.

Entre os nomes ligados a canais prolíficos estão Florjan Reka e seu irmão Roland, que tiveram contas associadas desativadas em parte após o contato com o YouTube, e o motorista de táxi Dean Hill, observado filmando nas ruas.

Em relatos da apuração, as filmagens são feitas muitas vezes de trás, ou com ângulos baixos, e em alguns casos expõem partes íntimas das vítimas, sem que elas percebam no momento.

Escala, audiência e potencial de lucro

A investigação identificou canais que acumulam visualizações massivas, alguns com mais de 200 milhões de visualizações, e vídeos que, juntos, foram vistos mais de três bilhões de vezes nos últimos três anos.

A professora Annabelle Gawer, diretora do Centro de Economia Digital da Universidade de Surrey, aponta que as filmagens podem gerar “receitas multimilionárias”, e calcula que um vídeo com um milhão de visualizações pode render até US$ 6,8 mil, cerca de R$ 35,3 mil.

Um dos canais ligados a Florjan Reka tinha quase 200 milhões de visualizações e 399 mil assinantes, e uma página no Facebook associada acumulava mais de 600 mil seguidores, conforme a apuração.

Impacto sobre as vítimas e relatos

Mulheres localizadas pela investigação relataram sensação de humilhação, medo e alteração no comportamento, muitas reduzindo ou interrompendo saídas noturnas por receio.

Grace, uma das vítimas, disse que planejava a roupa com cuidado, mas ao ver o vídeo percebeu que o ângulo da gravação expôs sua saia, e que desconhecidos assistiram as imagens milhões de vezes.

Sua irmã, Sophie, afirmou, “Não saio mais porque tenho medo”, e acrescentou, “Isso não é normal”, palavras que resumem o sentimento de várias entrevistadas.

Reação de plataformas e limites legais

Em contato com a investigação, o YouTube desativou duas contas ligadas a um dos responsáveis, o TikTok removeu quatro canais, e a Meta informou ter retirado conteúdos que violavam suas regras, embora muitos vídeos permaneçam ativos em outras páginas.

No Reino Unido, a gravação em espaços públicos raramente é crime, e especialistas descrevem a situação como uma “zona cinza” da legislação, entre voyeurismo e assédio, o que dificulta ações penais consistentes.

A polícia de Manchester chegou a deter um homem em 2024 por suspeita de assédio e perseguição relacionada a vídeos semelhantes, mas em um caso recente a autoridade afirmou não ter tomado novas medidas contra um suspeito por causa das “limitações da legislação vigente”, e sinalizou que busca alternativas civis.

Os homens apontados negam irregularidades em mensagens à investigação, por exemplo Dean Hill declarou, “Não filmo embaixo de saias, partes íntimas do corpo, nem nenhum tipo de nudez”, e afirmou que seu conteúdo mostra pessoas em espaços públicos de forma não seletiva.

Especialistas, vítimas e autoridades ouvidas pela investigação alertam para a necessidade de regras mais claras e de respostas das plataformas e do poder público, para frear a circulação de imagens feitas sem consentimento e para oferecer proteção e reparação às mulheres afetadas.

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