Movimento sustentado por expectativa de queda da Selic, cortes nos EUA e forte entrada de capital estrangeiro, enquanto incertezas eleitorais e geopolíticas prometem tornar o Ibovespa mais volátil ao longo de 2026
O principal índice da bolsa brasileira registrou uma valorização expressiva em janeiro, alimentada por fatores domésticos e externos que têm atraído investidores para ações consideradas de maior risco e com potencial de retorno.
Analistas destacam que a combinação de juros em queda, fluxo de recursos internacionais e percepção de oportunidade em ativos brasileiros explica parte do rali, mas alertam que o cenário político e choques geopolíticos podem trazer reveses.
Os dados e as análises citadas abaixo foram compilados a partir de informações divulgadas pelo g1
Por que o Ibovespa subiu tanto em janeiro
Com valorização de 12,56% em janeiro, o Ibovespa registrou sua terceira maior alta mensal desde 2010, segundo levantamento de Einar Rivero, da consultoria Elos Ayta. O resultado fica atrás apenas de março de 2016, quando o índice avançou 16,97%, e de novembro de 2020, com alta de 15,90%.
Apesar de ter fechado a sexta-feira em queda de 0,97%, aos 181.364 pontos, a correção não apagou os ganhos, e o índice acumulou 42,90% em 12 meses. Esses números refletem a forte demanda por ações que podem se beneficiar de um ambiente de juros mais baixo e da rotação de portfólios globais.
Juros, Tesouro dos EUA e o papel dos investidores estrangeiros
O movimento conta com duas frentes de estímulo: a perspectiva de cortes de juros no Brasil e nos Estados Unidos. No Brasil, o Banco Central sinalizou início de redução da Selic em março, e a projeção do mercado é que a taxa, atualmente em 15%, caia 2,75 pontos percentuais até o fim de 2026, chegando a 12,25% ao ano.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve reduziu os juros em 2025, com três cortes que levaram a taxa de referência para a faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Juros menores nos EUA reduzem o rendimento das Treasuries, incentivando investidores a buscar retornos maiores em mercados emergentes, entre eles o Brasil.
O fluxo externo tem sido determinante, Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, ressalta que, em 2025, investidores não residentes aplicaram R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa brasileira, e que, em 2026, até 20 de janeiro, o total somava R$ 8,7 bilhões líquidos. “Ou seja, o investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice local renovar máximas é grande”, disse ele.
Riscos que podem frear ou inverter a alta
Apesar do otimismo, economistas consultados lembram que a palavra de ordem para 2026 deve ser volatilidade. A atuação do presidente americano Donald Trump em temas geopolíticos tem gerado instabilidade nas economias desenvolvidas, e, dependendo dos desdobramentos, isso pode tanto favorecer mercados emergentes quanto reverter ganhos.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, alerta que “Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança”, e que o aumento de riscos políticos e comerciais pode afetar o ambiente de negócios, trazendo impacto negativo para algumas companhias. Ele afirma que “Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo”.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que a forte alta do Ibovespa em 2025 foi impulsionada, em grande parte, por fatores externos, e que o Brasil ainda enfrenta desafios fiscais. Conforme ele observou, “alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia”.
Onde o Ibovespa pode chegar em 2026 e o que esperar
As projeções divergem conforme o grau de otimismo. Analistas do Itaú BBA estimam que o Ibovespa pode encerrar o ano aos 185 mil pontos, enquanto leituras mais otimistas apontam possibilidade de ultrapassar os 252 mil pontos. A Santander Corretora projeta 195 mil pontos ao fim de 2026, com renovações de recordes ao longo do ano.
Rafael Costa ressalta que o avanço não será linear, e que a oscilação dependerá do desenrolar político e das condições externas. “Onde o Ibovespa vai parar? Aos 180 mil, 200 mil, 250 mil pontos? Ninguém sabe. Mas, sim, há uma grande possibilidade de o mercado continuar avançando neste ano”, disse ele.
Em suma, o Ibovespa começa 2026 com força, sustentado por expectativas de cortes de juros e fluxo estrangeiro, mas a trajetória ao longo do ano vai depender da combinação entre política econômica, resultados corporativos e eventos geopolíticos, fatores que podem tanto impulsionar quanto limitar novas altas.