Os sinais que sustentam a alta do Ibovespa incluem cortes de juros no Brasil e nos EUA, forte entrada de estrangeiros e busca por mercados emergentes, mas a política e a fiscalidade podem mudar a direção
O índice da B3 começou 2026 em forte aceleração, renovou recordes e mantém investidores otimistas sobre nova fase de valorização. Para a praça financeira, há fundamentos para continuidade, mas também motivos para cautela.
Analistas apontam que a combinação de juros em queda e real relativamente atrativo vem atraindo capital externo, o que tem pressionado para cima o mercado acionário brasileiro.
Esses pontos e os fatores de risco serão detalhados a seguir, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a bolsa subiu e o que já aconteceu
Após disparar quase 34% em 2025, o Ibovespa seguiu em alta no começo de 2026, só em janeiro já registrou sete recordes de fechamento. Nesta terça-feira (27), alcançou os 181.919 pontos pela primeira vez, acumulando valorização de quase 13% no ano, e em 12 meses a alta é de 45%.
O bom desempenho reflete, segundo especialistas, uma conjunção de fatores externos e internos, entre eles cortes de juros nos EUA, expectativa de reduções na Selic e realocação global de recursos para mercados emergentes.
Cortes de juros e rotação de capital
O mercado projeta que o Banco Central do Brasil deve começar a reduzir a Selic no primeiro trimestre, a projeção do mercado financeiro é que a taxa básica de juros caia 2,75 pontos percentuais até o fim de 2026, passando de 15% para 12,25% ao ano.
Nos EUA, o Federal Reserve cortou a taxa três vezes em 2025, reduzindo o referencial à faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, e há expectativa de novas quedas, o que tende a reduzir o rendimento das Treasuries e levar investidores a buscar ativos mais rentáveis em mercados emergentes.
Como resume André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, “Juros mais baixos tornam outros ativos mais atrativos, como as ações. Esse é um lado importante da balança”.
Entrada de estrangeiros e a visão da Faria Lima
O aporte estrangeiro tem sido determinante para o movimento, com investidores não residentes no Brasil aplicando R$ 25,4 bilhões em compras líquidas na bolsa em 2025, e, em 2026, até 20 de janeiro, esses investidores já somam R$ 8,7 bilhões líquidos em compras de ações brasileiras.
Ricardo Peretti, estrategista da Santander Corretora, apontou que “Ou seja, o investidor estrangeiro segue sendo o principal responsável pela valorização do mercado local nos últimos meses. Se a rotação de recursos globais para mercados emergentes continuar, a probabilidade de o índice local renovar máximas é grande”.
Além disso, a percepção de que ações brasileiras estão mais baratas em termos relativos e o aumento da aversão a riscos em economias desenvolvidas têm colocado o Brasil como destino de parte desse capital.
Riscos que podem frear a alta, entre Trump e eleições
Apesar do otimismo, a palavra de ordem para 2026 é volatilidade. Especialistas destacam que a ofensiva geopolítica do presidente americano Donald Trump tem gerado instabilidade global, e isso pode tanto favorecer mercados emergentes quanto elevar os riscos sistêmicos.
Como adverte André Galhardo, “Tudo isso pode afetar o ambiente de negócios e trazer problemas para algumas companhias. Esse é o outro lado da balança, com potencial de impacto negativo”.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, lembra que “a alta de 34% do Ibovespa em 2025 foi puxada exclusivamente por fatores externos” e aponta preocupações fiscais no Brasil, observando que “alguns países tiveram resultados muito melhores do que o Brasil, como Polônia, Coreia do Sul e a própria Colômbia”.
O calendário eleitoral de outubro também pesa, porque anúncios de candidaturas e pesquisas já mostraram como reações bruscas podem afetar a bolsa e o dólar, como demonstrou a volatilidade após a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Até onde o Ibovespa pode ir e cenários
Se o cenário favorável prevalecer, analistas mais otimistas veem espaço para o Ibovespa ultrapassar os 200 mil pontos. O Itaú BBA avalia que o índice pode encerrar o ano aos 185 mil pontos, e em uma leitura mais otimista, o índice poderia superar os 252 mil pontos.
A Santander Corretora projeta que o índice alcance 195 mil pontos ao fim de 2026, com sucessivas renovações de recordes ao longo do ano.
Como lembra Rafael Costa, o avanço não deve ser linear, há grande possibilidade de o mercado continuar avançando em 2026, mas com picos de volatilidade dependentes de desdobramentos políticos, fiscais e externos.