Proposta do SEIU-UHW de taxar fortunas acima de US$ 1 bilhão, aplicada retroativamente a 1º de janeiro de 2026, já mobiliza bilionários, políticos e juristas
O fim de 2025 trouxe uma movimentação incomum no Vale do Silício, com relatos de bilionários reduzindo vínculos com a Califórnia e abrindo escritórios em outros Estados.
A causa aparente foi a ameaça de um novo imposto estadual de 5% sobre fortunas a partir de US$ 1 bilhão, que, se aprovado, seria aplicado retroativamente a 1º de janeiro de 2026.
Nesta reportagem explicamos como funciona a proposta, quem apoia e quem se opõe, e quais são os possíveis efeitos econômicos e jurídicos, conforme informação divulgada pelo g1.
Como funciona a proposta e o cálculo do tributo
A iniciativa, apresentada pelo sindicato SEIU-UHW, prevê tributar residentes do Estado com fortunas a partir de US$ 1 bilhão, com alíquota progressiva que chega a 5% para patrimônios de US$ 1,1 bilhão ou mais.
Na prática, quase todos os afetados pagariam a alíquota máxima, porque, segundo a lista da Revista Forbes citada pelos autores da proposta, apenas um entre os 204 bilionários da Califórnia tem fortuna abaixo de US$ 1,1 bilhão.
O imposto seria cobrado uma única vez, com possibilidade de parcelamento em até cinco anos, em parcelas de 1% acrescidas de “uma pequena taxa”. A estimativa dos autores é arrecadar cerca de US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, ou US$ 20 bilhões por ano entre 2027 e 2031.
Reações no Vale do Silício e movimentações recentes
A proposta desencadeou sinais de insatisfação entre bilionários e investidores. Posts em redes sociais alimentaram especulações de mudanças de domicílio, e nomes como David Sacks e Peter Thiel anunciaram operações fora da Califórnia.
Em post traduzido, David Sacks escreveu “Mensagem recebida” ao comentar protestos, e depois anunciou que sua empresa abriu escritório em Austin, no Texas, dizendo “Que Deus abençoe o Texas e feliz ano novo”.
Reportagens também mostraram transferências de ativos e criação de escritórios em outros Estados por parte de alguns bilionários, enquanto outros, como Jensen Huang e Brian Chesky, descartaram planos de saída.
Argumentos a favor, objetivos da arrecadação e defesa técnica
Os autores da proposta afirmam que a taxação visa compensar cortes federais na saúde em 2025 e suprir um “rombo” fiscal, citando previsão de que “Economistas projetam que a Califórnia perderá cerca de US$ 100 bilhões nos próximos cinco anos” em cortes à saúde.
Segundo os idealizadores, 90% da receita seria destinada à saúde, e o restante para assistência alimentar e educação, com a intenção de “utilizar fundos dos que mais ganharam com as recentes mudanças federais para proteger aqueles que foram mais prejudicados”.
Especialistas como Brian Galle defendem que o imposto corrige distorções, porque os super-ricos, em geral, têm riqueza em ativos que não são tributados até a venda, e citam dados apontando que bilionários pagaram menos, em termos efetivos, que a média nacional.
Contestações políticas, riscos de saída e o caminho até a votação
O governador Gavin Newsom, do Partido Democrata, prometeu combater a inclusão da medida nas cédulas e argumenta que a proposta poderia inibir inovação e provocar perda de receita caso bilionários deixem o Estado.
Para chegar à votação em novembro, a iniciativa precisa da assinatura de 875 mil eleitores na Califórnia. Mesmo se aprovada, aliados do SEIU-UHW reconhecem que a medida provavelmente será alvo de disputas judiciais.
Analistas técnicos estimam que o tributo geraria dezenas de bilhões em receita, mas também perdas devido a possíveis saídas, embora defensores digam que poucos realmente conseguiriam mudar de domicílio fiscal em prazo curtíssimo.
O debate reúne argumentos econômicos, políticos e jurídicos, e deve intensificar campanhas de apoio e oposição ao longo do ano eleitoral, com efeitos potenciais sobre investimentos, filantropia e o cotidiano do Vale do Silício.