A disputa recente no Federal Reserve, a saída de dirigentes em outros países e intervenções políticas mostram como a independência dos bancos centrais pode se deteriorar, afetando preços e crescimento
A autonomia para definir juros sem interferência política é considerada essencial para controlar a inflação e preservar a confiança na economia, mas episódios recentes expõem fragilidades.
Nos Estados Unidos, a tentativa de remover a diretora do Fed, Lisa Cook, reacendeu o debate sobre limites entre o Executivo e o banco central.
Casos na Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue mostram consequências que vão da alta de preços ao colapso da moeda, conforme informação divulgada pelo g1.
Estados Unidos
No centro das atenções está o Federal Reserve, cujo papel de decisão sobre juros tem sido alvo de pressões políticas, incluindo a iniciativa do presidente Donald Trump contra a diretora Lisa Cook.
A história americana traz exemplos claros de interferência, como as tentativas de Richard Nixon sobre Arthur Burns na década de 1970, episódio associado ao começo de um surto inflacionário que só foi contido com a política dura de Paul Volcker.
Decisões políticas de curto prazo, como aquelas que visam ganhos eleitorais, podem minar a credibilidade do banco central, e essa perda de credibilidade costuma resultar em inflação mais alta no médio prazo.
Turquia
O presidente Recep Tayyip Erdogan se declarou publicamente um “inimigo dos juros”, e entre 2019 e 2023 demitiu quatro dirigentes do banco central por resistirem aos cortes que ele exigia.
O resultado foi oposto ao pretendido, com disparada da inflação e colapso da lira, e o governo acabou por nomear uma executiva, Hafize Gaye Erkan, que elevou a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, em 2023.
Desde então, o sucessor no comando apertou ainda mais a política antes de iniciar relaxamentos recentes, e a inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos.
América Latina, Argentina e Venezuela
Na Argentina, a nacionalização do banco central por Juan Perón, em 1946, abriu caminho para ciclos de emissão e crises inflacionárias que se repetiram nas décadas seguintes.
Governos chegaram a usar reservas e o caixa do banco central em decisões políticas, e presidentes do BC foram removidos por discordâncias com palanques do Executivo, como a demissão de Martín Redrado em 2010.
Na Venezuela, apesar de dispositivos constitucionais que protegem a autonomia e proíbem financiamento direto de déficits, leis e práticas tornaram o banco central subordinado ao Executivo, contribuindo para uma hiperinflação que, segundo alguns cálculos, chegou a mais de 1.000.000%.
Zimbábue
No Zimbábue, emissão monetária para financiar gastos do governo do então presidente Robert Mugabe levou a uma hiperinflação extrema.
Em janeiro de 2009, o banco central emitiu uma cédula de 100 trilhões de dólares, símbolo do colapso do poder de compra e da perda de confiança na moeda.
Casos como esse ilustram que quando a autoridade monetária perde independência e passa a financiar despesas públicas, a consequência mais provável é a aceleração da inflação e a erosão do crédito e do investimento.
O que está em jogo
A proteção da independência dos bancos centrais não é um tecnicismo institucional, é um fator que determina se uma economia terá estabilidade de preços e previsibilidade para negócios e famílias.
Estudos acadêmicos de décadas apontam que alinhamento excessivo entre políticas fiscais e monetárias tende a elevar inflação e reduzir crescimento, e os casos citados reforçam essa conclusão.
Para os formuladores de política, o desafio é equilibrar responsabilidades democráticas com salvaguardas que garantam que decisões monetárias sejam tomadas com foco na estabilidade, e não em objetivos políticos de curto prazo.
Em meio ao atual debate sobre o Fed e outras instituições, a lição é clara, a defesa da independência dos bancos centrais é central para evitar rupturas que prejudicam a economia e o bem-estar das populações.