Independência dos bancos centrais fica em xeque quando governos pressionam decisões de juros, veja exemplos do Fed, Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue explicados de forma clara
A capacidade dos bancos centrais de definir juros sem interferência política é vista como essencial para controlar a inflação e manter a credibilidade econômica.
Nos últimos anos, episódios em diferentes países mostraram como pressões políticas podem elevar preços, depreciar moedas e provocar crises, mesmo quando o objetivo declarado dos governos é reduzir custos para os cidadãos.
Os principais casos recentes envolvem o Federal Reserve dos EUA, a Turquia, a Argentina, a Venezuela e o Zimbábue, com lições sobre riscos e consequências, conforme informação divulgada pelo g1.
Estados Unidos, tentativas de influência sobre o Fed
Embora nenhum dirigente do Fed tenha sido demitido por não atender às exigências de um presidente, presidentes americanos já tentaram influenciar fortemente a política monetária, com impactos duradouros.
O ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter os custos de empréstimos baixos, apesar da rápida alta dos preços, em uma estratégia que é vista como ponto de partida para um surto inflacionário.
Décadas depois, o Fed precisou recuperar credibilidade, com Paul Volcker elevando os juros para dois dígitos para conter a inflação, uma medida politicamente impopular, mas que estabilizou preços por quase quatro décadas.
No episódio mais recente, a ofensiva do presidente Donald Trump contra a diretora do Fed, Lisa Cook, foi motivada por suas posições em decisões de juros, embora a iniciativa se apoie em acusações não comprovadas de fraude hipotecária, segundo a cobertura do g1.
Turquia e Argentina, demissões e nacionalização que abriram caminho para inflação
O presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que se autodeclara um inimigo dos juros, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por discordâncias sobre a política de taxas.
O efeito foi o oposto do prometido, com a inflação disparando e a lira em colapso, pressionando famílias para pagar por itens básicos.
Em 2023, Erdogan mudou parte da estratégia ao nomear a executiva Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, e seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política antes de iniciar um alívio, o que levou a inflação a recuar do pico de 85% no fim de 2022, mas permanecendo em dois dígitos.
No caso argentino, a nacionalização do banco central pelo ex-presidente Juan Perón, em 1946, marcou o início de um padrão de emissões para financiar gastos, com ciclos de inflação alta e hiperinflação nas décadas seguintes.
Além disso, dos 14 presidentes do BC desde 2000, vários foram afastados por divergências com o governo, incluindo Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar o plano de usar reservas cambiais para pagar dívidas.
Venezuela e Zimbábue, hiperinflação e emissão desenfreada
A Constituição venezuelana garantia independência do banco central e proibia o financiamento direto de déficits do governo, mas leis posteriores colocaram a instituição sob controle total do Executivo, com direção indicada exclusivamente pelo presidente, segundo a apuração do g1.
Com a queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para cobrir déficits, alimentando uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%.
No Zimbábue, o BC também emitiu moeda para financiar gastos do governo do então presidente Robert Mugabe, incluindo despesas eleitorais e subsídios, resultando em níveis extremos de hiperinflação.
Em janeiro de 2009, o então presidente do banco central, Gideon Gono, chegou a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares, símbolo da perda de controle sobre a política monetária naquele episódio.
O que essas experiências mostram para a independência dos bancos centrais
As lições históricas indicam que quando bancos centrais se alinham às preferências de políticos, os resultados costumam ser piores, com inflação mais alta e crescimento mais fraco.
Por outro lado, países que preservaram a autonomia de suas autoridades monetárias tendem a manter estabilidade de preços por mais tempo, porque a credibilidade do banco central reduz expectativas inflacionárias.
Em um contexto global de desafios macroeconômicos, a defesa da independência dos bancos centrais aparece como prioridade para evitar que decisões de curto prazo comprometam o bem-estar econômico no médio e longo prazo.