Independência dos bancos centrais em risco, como o Fed e outras cinco instituições, do Fed aos bancos da Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue
Como pressão política afeta a independência dos bancos centrais, do caso do Fed às crises na Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue, entenda os riscos e lições
Independência dos bancos centrais tem sido considerada essencial para conter a inflação e garantir crescimento, mas em vários países a instituição sofreu interferências diretas ou indiretas.
Casos recentes e históricos mostram consequências econômicas duradouras, da perda de credibilidade à alta persistente de preços, afetando famílias e mercados.
O panorama a seguir reúne exemplos e dados para entender por que a independência dos bancos centrais é tão debatida atualmente, conforme informação divulgada pelo g1.
Estados Unidos
No centro do debate global está o Federal Reserve, com a tentativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, atraindo atenção internacional sobre riscos à autonomia da instituição.
Historicamente, presidentes americanos tentaram influenciar o Fed, com episódios como quando o ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter os custos de empréstimos baixos, apesar da rápida alta dos preços.
A reação veio anos depois com Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos, uma mudança que controlou a inflação, embora tenha levado o país à recessão, e restabeleceu a credibilidade do banco central americano.
Turquia
O exemplo turco mostra interferência direta na condução da política monetária, com demissões de dirigentes entre 2019 e 2023 por resistirem a cortes de juros exigidos pelo presidente Recep Tayyip Erdogan.
O resultado foi profundo, a moeda perdeu valor e a inflação explodiu, até que a direção mudou de rumo e medidas agressivas foram adotadas para restaurar estabilidade.
No caso mais recente, a inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos, um dado que ilustra a dificuldade de recuperar preço e confiança rapidamente.
Argentina
Na Argentina, a intervenção histórica também deixou legado duradouro, A nacionalização do banco central pelo ex-presidente argentino Juan Perón, em 1946, colocou o país sul-americano em uma trajetória de crises recorrentes nas décadas seguintes.
Nas últimas décadas, governantes usaram o banco central para financiar políticas, e diretores foram afastados por discordâncias com governos, um padrão que contribuiu para inflação alta e instabilidade.
Venezuela
Apesar da Constituição garantir certo grau de independência, a Venezuela viu suas regras serem alteradas e o banco central colocado sob controle do Executivo.
O resultado foi a emissão de moeda para cobrir déficits e uma crise monetária extrema, com hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%, segundo registros históricos do país.
Zimbábue
O Zimbábue é outro caso extremo de perda de controle monetário, quando o banco central emitiu moeda para financiar gastos estatais e eleitorais, gerando hiperinflação devastadora.
Em um episódio simbólico da crise, em janeiro de 2009, levou o então presidente do banco central, Gideon Gono, a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares, sinal de colapso da confiança na moeda.
O que mostram os estudos e as lições
Decadas de pesquisa apontam que, em países onde os bancos centrais se alinham às preferências de políticos, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento, um padrão que aparece nas cinco histórias descritas.
Proteger a independência dos bancos centrais significa preservar ferramentas que permitem controlar a inflação e ancorar expectativas, evitando ciclos de perda de credibilidade que custam caro à população.
As lições são claras, autoridades e mercados tendem a reagir com mais estabilidade quando as instituições têm autonomia técnica, transparentes metas e mandatos claros, e quando há mecanismos que reduzam a ingerência política.
Em síntese, os exemplos do Fed, da Turquia, da Argentina, da Venezuela e do Zimbábue mostram encontros e desencontros entre política e técnica, reforçando por que a defesa da independência dos bancos centrais é um tema central para a economia global.