Independência dos bancos centrais em risco, como o Fed e outros quatro bancos centrais enfrentam pressão política que elevou inflação e prejudicou economias
Pressões políticas recentes mostram riscos à independência dos bancos centrais, impactando juros, inflação, câmbio e a credibilidade das instituições ao redor do mundo
Independência dos bancos centrais é considerada essencial para conter a inflação e preservar a estabilidade econômica, porque permite decisões sobre juros sem interferência política.
Nos Estados Unidos, a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, reacendeu o debate sobre como pressões políticas podem afetar decisões monetárias e a confiança no banco central.
Em países onde os bancos centrais se alinham às preferências de políticos, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento, como indicam décadas de estudos acadêmicos, conforme informação divulgada pelo g1
EUA, tentativas de influência e o legado de Volcker
Ao longo da história, presidentes americanos já tentaram influenciar o Fed sem sucesso formal em demissões por decisões de juros, mas com efeitos duradouros sobre a política econômica.
No caso de Cook, apesar de os votos dela nas decisões de juros estarem no pano de fundo da ofensiva de Trump, a iniciativa se apoia em acusações não comprovadas de fraude hipotecária.
Casos anteriores mostram os riscos de interferência política. Richard Nixon pressionou Arthur Burns a manter juros baixos antes de 1972, episódio associado ao surto inflacionário que só foi contido por ações de Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos.
Turquia, a queda da lira e o pico de 85% de inflação
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, se declara adversário dos juros e substituiu dirigentes do banco central em série entre 2019 e 2023, buscando cortes que, segundo ele, reduziriam a inflação.
O efeito foi o oposto, a inflação disparou, a lira entrou em colapso e famílias passaram a ter dificuldade para arcar com itens básicos, como aluguel e alimentação.
Em 2023, Erdogan mudou de rumo e nomeou Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, e depois o sucessor apertou ainda mais a política antes de iniciar, recentemente, um alívio. A inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos.
Argentina e Venezuela, nacionalização, emissão e hiperinflação
A nacionalização do banco central pelo ex-presidente argentino Juan Perón, em 1946, colocou o país sul-americano em uma trajetória de crises recorrentes nas décadas seguintes.
Nesse período, o governo passou a imprimir dinheiro para financiar gastos, o que provocou sucessivas ondas de inflação elevada e hiperinflação. Dos 14 presidentes do BC desde 2000, vários foram afastados por divergências com o governo, entre eles Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar o plano da então presidente Cristina Fernández de Kirchner de usar bilhões de dólares em reservas cambiais para pagar dívidas.
No caso da Venezuela, a constituição garante certo grau de independência ao banco central e proíbe o financiamento direto de déficits do governo, ainda assim o Executivo aprovou leis que colocaram a instituição sob controle total. Após a queda dos preços globais do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para financiar déficits elevados, alimentando uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%.
Zimbábue e lições para a credibilidade monetária
O banco central do Zimbábue também emitiu moeda para financiar gastos do governo do então presidente Robert Mugabe, incluindo, segundo o Fundo Monetário Internacional, despesas eleitorais, transferências para entidades controladas pelo Estado e a compra de equipamentos subsidiados para agricultores.
A hiperinflação atingiu níveis extremos e, em janeiro de 2009, levou o então presidente do banco central, Gideon Gono, a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares, um símbolo do colapso da política monetária e da perda de confiança pública na moeda.
Esses episódios mostram que, quando a independência dos bancos centrais é fragilizada por interesses políticos, o resultado tende a ser maior inflação, volatilidade e custos sociais elevados. Protegê-la, com regras claras e transparência, é apontado por acadêmicos e autoridades como condição para preservar a estabilidade de preços e a prosperidade de longo prazo.