Independência dos bancos centrais em risco, pressão política e inflação, por que a tentativa de demitir diretora do Fed reacende debate global com cinco exemplos históricos

Como a pressão sobre a independência dos bancos centrais, do Fed à Turquia, Argentina e Venezuela, tende a elevar a inflação e prejudicar o crescimento econômico

A recente ofensiva do presidente dos Estados Unidos contra a diretora do Federal Reserve voltou a colocar no centro do debate a independência dos bancos centrais, e o risco que interferências politicas representam para preços e crescimento.

Estudos acadêmicos apontam que, quando bancos centrais se alinham às preferências de políticos, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento.

Nas linhas seguintes, analisamos cinco casos históricos que ilustram como a pressão política afetou decisões e gerou consequências econômicas duras, conforme informação divulgada pelo g1.

Estados Unidos, o Fed e o impacto de decisões políticas

No centro da discussão está a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, numa ofensiva que, segundo reportagens, se apoia em “acusacões não comprovadas de fraude hipotecária”.

Historicamente, presidentes americanos também tentaram influenciar o Fed, com efeitos duradouros. O ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter juros baixos antes da eleição de 1972, episódio que é visto como o início de um surto inflacionário.

O problema só foi contido por ações duras de Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos, decisão que levou o país à recessão, mas restabeleceu a credibilidade do banco central e controlou a inflação por décadas.

Turquia, demissões e colapso da lira

O caso da Turquia é um exemplo recente de interferência direta. O presidente Recep Tayyip Erdogan, que se declara “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por resistirem a cortes que ele exigia.

O resultado foi o oposto do pretendido, com a inflação disparando e a moeda entrando em colapso, pressionando o custo de vida das famílias.

Em 2023, Erdogan nomeou a executiva Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, e seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política monetária antes de iniciar um alívio, com a inflação recuando do pico de 85% no fim de 2022, mas permanecendo em dois dígitos.

Argentina e o custo da subordinação do banco central

A nacionalização do banco central pela liderança de Juan Perón em 1946 colocou a Argentina em trajetória de crises recorrentes, com emissão de moeda para financiar gastos e sucessivas ondas de inflação e hiperinflação.

Desde 2000, o país teve 14 presidentes do BC, e diversos foram afastados por divergências com o governo, entre eles Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar um plano do governo de usar reservas cambiais para pagar dívidas.

Esses episódios ilustram como a perda de autonomia do banco central pode levar a políticas que elevam a inflação e minam a confiança na moeda.

Venezuela, Zimbábue e hiperinflações como alerta

A Venezuela mostra como mudanças institucionais podem acelerar crises. Apesar de a Constituição garantir certo grau de independência e proibir financiamento direto do déficit, o governo aprovou leis que colocaram o banco central sob controle total do Executivo.

Depois da queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para cobrir déficits, alimentando uma hiperinflação que, segundo reportagens, atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1,000,000%.

No Zimbábue, emissões para financiar gastos públicos, incluindo despesas eleitorais e subsídios, levaram a uma hiperinflação extrema, e em janeiro de 2009 o então presidente do banco central, Gideon Gono, chegou a emitir uma cédula de 100 trilhões de dólares.

Lições e por que a independência dos bancos centrais importa

Os exemplos mostram que quando bancos centrais perdem autonomia, a consequência mais comum é o aumento da inflação e a perda de credibilidade da política monetária.

Manter o foco em metas de estabilidade de preços, sem interferência política de curto prazo, tende a preservar o poder de compra e favorecer o crescimento sustentável.

Debates recentes sobre tentativas de demissão no Fed reacendem uma velha lição, que os formuladores de política conhecem bem, mas que a história continua a lembrar, pelo custo que escolhas erradas impõem à economia e às famílias.