Independência dos bancos centrais em xeque, o que o caso do Fed revela e lições da Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue sobre interferência política

Pressão política sobre o Fed e outros bancos centrais expõe riscos à estabilidade econômica, com exemplos históricos que mostram aumento da inflação e crises cambiais

A independência dos bancos centrais, ou seja, a capacidade de definir juros sem interferência política, é vista como essencial para conter a inflação e garantir crescimento sustentável.

Caso recente envolvendo tentativa de demissão da diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, reacendeu o debate sobre limites entre supervisão política e intervenção direta nas decisões monetárias.

Nesta reportagem, explicamos por que a independência dos bancos centrais importa e revisitamos cinco casos históricos em que a interferência política teve efeitos econômicos ruins, conforme informação divulgada pelo g1.

Estados Unidos

No debate sobre o Fed, há precedentes que ilustram os riscos de pressões políticas sobre a política monetária.

Embora nenhum dirigente do Fed tenha sido demitido por não atender às exigências de um presidente sobre juros, presidentes dos EUA tentaram influenciar decisões. No caso de Cook, apesar de os votos dela nas decisões de juros estarem no pano de fundo da ofensiva de Trump, a iniciativa se apoia em acusações não comprovadas de fraude hipotecária, segundo relato do g1.

Casos históricos, como a pressão do ex-presidente Richard Nixon sobre Arthur Burns na década de 1970, são apontados como gatilho de surtos inflacionários que só foram controlados depois de ações duras, quando Paul Volcker elevou os juros para dois dígitos.

Também há registro de intervenção do presidente Lyndon Johnson contra William McChesney Martin Jr., episódio que mostra como acordos políticos em torno de política monetária podem ter consequências inflacionárias de longo prazo.

Turquia

O exemplo turco é um dos mais citados sobre o custo da interferência política. O presidente Recep Tayyip Erdogan, que se declara inimigo dos juros, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por divergências sobre a política de juros.

O efeito foi o oposto do pretendido, a inflação disparou, a lira entrou em colapso e famílias passaram a ter dificuldade para arcar com itens básicos, como aluguel e alimentação.

Em 2023, Erdogan mudou de rumo e nomeou a executiva Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%. O sucessor e atual presidente do banco central, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política antes de iniciar, recentemente, um alívio, e a inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos.

Argentina

A história argentina mostra os riscos de um banco central submetido ao Executivo por longo prazo.

A nacionalização do banco central pelo ex-presidente argentino Juan Perón, em 1946, colocou o país sul-americano em uma trajetória de crises recorrentes nas décadas seguintes, segundo o g1, com o governo recorrendo à emissão de moeda para financiar gastos e provocando sucessivas ondas de inflação elevada e hiperinflação.

Desde 2000, o país teve 14 presidentes do banco central, e vários foram afastados por divergências com o governo. Entre eles, Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar o plano da então presidente Cristina Fernández de Kirchner de usar bilhões de dólares em reservas cambiais para pagar dívidas.

Venezuela e Zimbábue

No caso da Venezuela, a Constituição prevê certa independência e proíbe financiamento direto de déficits, mas medidas legais colocaram o banco central sob controle total do Executivo.

Com a queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para financiar déficits elevados, alimentando uma hiperinflação, a hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%, conforme o g1.

No Zimbábue, políticas semelhantes também levaram a hiperinflação extrema. O banco central emitiu moeda para financiar gastos do governo de Robert Mugabe, incluindo, segundo o Fundo Monetário Internacional, despesas eleitorais, transferências para entidades controladas pelo Estado e a compra de equipamentos subsidiados para agricultores.

Em janeiro de 2009, a situação alcançou um símbolo do colapso monetário, quando o então presidente do banco central, Gideon Gono, emitiu uma cédula de 100 trilhões de dólares.

Em resumo, estudos mostram que a interferência em bancos centrais tende a elevar a inflação e prejudicar a economia, e os casos recentes e históricos ressaltam a importância de preservar mecanismos que garantam autonomia técnica das instituições monetárias.

Com o debate sobre o Fed no centro das atenções, os exemplos da Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue servem como alerta sobre os custos econômicos e sociais de subordinar política monetária a pressões políticas.