Influenciadores 2depais descobrem rombo de R$ 500 mil em acordo com agência, denunciam calote, isolamento e falta de prestação de contas
Contrato dava à agência controle total, influenciadores relatam orientações para não falar com marcas, atrasos e documentos que apontaram rombo de R$ 500 mil
Gustavo Catunda e Robert Rosselló, do perfil 2depais, contam que a rotina que deveria profissionalizar o trabalho virou uma sequência de atrasos e silêncio, até que a própria checagem de comprovantes das marcas revelou que pagamentos não haviam sido repassados, configurando um possível rombo de R$ 500 mil.
Segundo o casal, o contrato com a agência dava controle total à empresa, que negociava, assinava contratos, emitia notas fiscais, recebia pagamentos e deveria repassar 70% às campanhas aos influenciadores, ficando com 30% de comissão. Aos poucos, os atrasos se tornaram frequentes e a comunicação financeira foi vedada.
No final de 2024, a sequência de pendências e justificativas prontas motivou o casal a contatar as marcas diretamente, e os comprovantes mostraram que os pagamentos às empresas estavam em dia, revelando o suposto desvio. Conforme informação divulgada pelo g1.
Como funcionava o isolamento e quando a ficha caiu
Os influenciadores relatam orientações constantes para não manter contato direto com marcas, colegas ou outras agências, sempre com argumentos de proteção da imagem, segundo o relato deles. Uma das frases reproduzidas foi, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”.
Na prática, toda a negociação e a etapa financeira ficavam sob controle exclusivo da agência, e os influenciadores recebiam apenas os briefings iniciais. “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”, disse Robert ao explicar a postura da agência durante a relação comercial.
A descoberta definitiva, conforme relato do casal, veio ao pedir comprovantes às marcas. Um dos comprovantes, enviado por e-mail por uma empresa contratante, mostrou que a campanha havia sido paga cinco ou seis meses antes, enquanto a agência afirmava que ainda não havia recebido.
Documentos, prejuízos e consequências pessoais
Com os pagamentos não repassados, Gustavo e Robert precisaram emitir notas fiscais sem ter recebido os valores correspondentes, o que gerou dívidas fiscais que foram parceladas em mais de R$ 40 mil, segundo o relato deles. Além do impacto financeiro, o estresse afetou a saúde, e Robert afirmou ter desenvolvido uma doença autoimune relacionada ao estresse, além de perda de confiança nas relações profissionais.
O casal reuniu comprovantes, cruzou datas e valores, e procurou um advogado, que levou o caso ao Ministério Público, apontando que a conduta pode configurar apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa.
A resposta da Justiça e os efeitos práticos
Em decisão citada pelo g1, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes para determinar o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, negando essas medidas. Ainda assim, o magistrado determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
O g1 procurou os responsáveis pela agência para comentar as acusações, mas, até a última atualização da reportagem, não houve retorno, segundo a mesma apuração.
Orientações legais para evitar casos semelhantes
A advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, ouvida pelo g1, destaca a importância de cláusulas contratuais claras sobre transparência financeira, prazos e documentos, e alerta para sinais de alerta, como exclusividade excessiva e resistência em fornecer relatórios.
Itaborahy ressalta que é essencial limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para qualquer acordo e garantir acesso a todos os contratos feitos em nome do influenciador. Ela afirma, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”.
Ainda segundo a advogada, atrasos no repasse configuram inadimplência e podem gerar juros e multa, e, em situações mais graves, podem configurar crime de apropriação indébita, previsto no artigo 168 do Código Penal. Ela lembra que, “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.
O que aprendem outros criadores e medidas práticas
Após a divulgação do caso, Gustavo e Robert relatam que outros criadores os procuraram, afirmando ter passado por problemas semelhantes, o que sugere que não se trata de um episódio isolado. Para reduzir riscos, modelos mais seguros incluem repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou uso de contas de garantia, além de exigência de relatórios detalhados e acesso aos contratos.
O caso dos 2depais evidencia como falta de transparência e controle exclusivo por parte de representantes pode gerar prejuízos financeiros e impactos pessoais, e reforça a recomendação de que influenciadores mantenham organização documental e cláusulas contratuais que protejam seus direitos.
Para quem trabalha com publicidade e representação, a lição é clara, questionar estruturas de exclusividade, exigir prestação de contas e, sempre que possível, manter canais diretos com marcas, para evitar que sinais de alerta evoluam para um rombo de R$ 500 mil ou para prejuízos semelhantes.