Influenciadores 2depais dizem ter descoberto rombo de R$ 500 mil em acordo com agência Hello Group, isolamento forçado, atraso de repasses e ação no Ministério Público
Como o casal descobriu o suposto rombo de R$ 500 mil, marcas confirmaram pagamentos, contrato dava exclusividade e especialistas alertam para cláusulas de transparência
Dois influenciadores do perfil 2depais relatam ter identificado um prejuízo superior a R$ 500 mil após cruzar comprovantes enviados por marcas com as informações que a agência lhes repassava.
Segundo eles, o contrato com a agência dava controle amplo sobre negociações, pagamentos e comunicação, enquanto eram orientados a evitar contato direto com anunciantes e outros criadores.
Os detalhes do caso e as providências tomadas pelos influenciadores foram relatados em entrevista, conforme informação divulgada pelo g1.
Descoberta e como os comprovantes vieram à tona
O casal contou que, no início da parceria, a agência cumpria as promessas e as campanhas chegavam em dia. Aos poucos, surgiram atrasos frequentes e explicações prontas, como problemas de mercado e burocracia.
Segundo eles, a comunicação financeira ficava sempre centralizada na agência, e não havia acesso a contratos ou comprovantes. Quando começaram a montar uma planilha própria para controlar campanhas, perceberam inconsistências.
Ao contatar diretamente algumas marcas, obtiveram respostas idênticas, com comprovantes que mostravam pagamentos feitos meses antes das datas que a agência alegava ter recebido. Foi aí que perceberam a dimensão do problema.
O casal relatou ainda uma situação que acelerou a tomada de atitude, descrevendo que, enquanto levavam a filha ao hospital por suspeita de meningite, receberam um comprovante de pagamento que contrariava a versão da agência. Segundo o relato, “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal. A gente levou ela para o hospital. No caminho para o hospital, recebemos o primeiro comprovante de que não existia nenhum pagamento em atraso em relação àquela marca”, e, depois, “Ali, a ficha caiu”.
O que o contrato previa e a acusação
O acordo assinado entre o casal e a agência previa exclusividade, com a empresa ficando encarregada de fechar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar valores, com comissão de 30% para a agência e 70% para os influenciadores.
Após cruzar os documentos, Gustavo Catunda e Robert Rosselló afirmam que o rombo ultrapassa R$ 500 mil. Eles procuraram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, que recebeu a denúncia apontando possível apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa.
Em decisão, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes para determinar depósito judicial e bloqueio dos valores da empresa, porém determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Impactos pessoais e financeiros
Os influenciadores relatam que, sem os repasses, tiveram que emitir notas fiscais sem receber o correspondente, o que gerou dívidas fiscais e o parcelamento de mais de R$ 40 mil em impostos. A situação afetou também a saúde e o bem-estar da família.
Robert disse ter desenvolvido uma doença autoimune associada ao estresse, e que a experiência gerou sentimentos de insegurança e desconfiança. Além disso, o casal afirma que outros criadores os procuraram relatando problemas semelhantes com a mesma agência.
O que especialistas recomendam, segundo fontes
A advogada Mayra Mega Itaborahy, citada na reportagem, ressalta a importância de cláusulas de transparência financeira em contratos entre influenciadores e agências, para reduzir riscos de retenção indevida de valores.
Segundo a especialista, é essencial limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito para qualquer acordo e garantir que o criador tenha acesso a todos os contratos feitos em seu nome, com valores, prazos e obrigações.
Itaborahy alerta que a ausência de relatórios e a resistência em fornecer documentos são sinais de alerta, e que atrasos no repasse caracterizam inadimplência, podendo gerar juros, multa e, em casos mais graves, configurar crime de apropriação indébita, conforme art. 168 do Código Penal.
Modelos contratuais mais seguros citados incluem repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou uso de contas de garantia. Manter organização de documentos, contratos e comprovantes é apontado como prova essencial em disputas.
Como se proteger em parcerias com agências
Especialistas recomendam atenção especial a cláusulas que impeçam qualquer contato direto com marcas, pois podem ferir princípios de razoabilidade e boa-fé. É importante prever prazos de pagamento, multa por atraso, transparência na prestação de contas e mecanismos de auditoria.
Entre as práticas sugeridas estão manter cópias de contratos, registrar todas as comunicações, solicitar comprovantes de pagamento das marcas e, quando possível, negociar que parte dos repasses seja feita diretamente ao criador ou por meio de contas de garantia.
Para influenciadores que desconfiem de irregularidades, procurar orientação jurídica e reunir documentos como notas fiscais, e-mails e comprovantes de pagamento das marcas é o primeiro passo para buscar reparação.
O g1 procurou a Hello Group para comentar as acusações, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem, conforme informação divulgada pelo g1.