Contrato de exclusividade dava controle total à agência, atrasos e ordens para não falar com marcas impediram conferência, casal cruzou comprovantes e detectou repasses quitados e prejuízo
Dois influenciadores do perfil 2depais relatam ter identificado um prejuízo superior a R$ 500 mil após confrontar comprovantes de pagamento enviados por marcas com os recibos e relatórios que a agência lhes apresentava.
O casal, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores, diz que o contrato dava à agência exclusividade para negociar, emitir notas e receber pagamentos, enquanto eles eram orientados a evitar qualquer contacto direto com anunciantes.
As informações foram reunidas e levadas ao Ministério Público, e o caso ganhou repercussão nas redes, conforme informação divulgada pelo g1.
Como descobriram o rombo
Segundo o relato dos influenciadores, no início os atrasos nos repasses pareciam pontuais e vinham com explicações prontas, como que o mercado estava difícil, que havia burocracia ou confusão por parte das marcas.
Com o tempo, porém, os atrasos se tornaram frequentes e a agência teria reforçado orientações para que eles não tivessem contato direto com marcas, nem comparassem valores com colegas, tudo apresentado como um cuidado com a imagem. O casal cita frases dadas pela agência, como “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”, e “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”.
Só quando os influenciadores passaram a pedir comprovantes diretamente às marcas e cruzar datas e valores com suas próprias anotações é que perceberam divergências. As empresas disseram que os pagamentos tinham sido feitos, alguns meses antes, enquanto a agência afirmava não ter recebido.
O contrato e as regras que favoreciam a agência
O acordo assinado, conforme o relato, dava à agência controle integral das negociações, da assinatura de contratos, da emissão de notas fiscais e do recebimento dos pagamentos. No documento, a divisão prevista era que 70% do valor das campanhas publicitárias vão para os influenciadores, enquanto a agência fica com os 30% restantes.
Os influenciadores afirmam que não tinham acesso pleno aos contratos firmados em seu nome, e que a etapa financeira das negociações era sempre omitida, sem relatórios ou prestação de contas detalhada. Por isso, decidiram montar uma planilha própria para monitorar campanhas e cobranças, e então surgiram as discrepâncias.
O casal relata que, em 2024, campanhas fechadas em novembro continuavam sem pagamento no início de 2025, e que, em um momento de crise pessoal, receberam o primeiro comprovante de que a marca já havia quitado a campanha meses antes. Eles contam a cena: “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal. A gente levou ela para o hospital. No caminho para o hospital, recebemos o primeiro comprovante”.
Consequências financeiras e medidas legais
Depois de reunir documentos e comprovantes, eles procuraram um advogado, que apresentou o caso ao Ministério Público, apontando que a situação pode configurar apropriação indébita majorada — quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa. A defesa solicitou bloqueio de bens da agência e prestação de contas.
Em decisão citada pelo g1, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes para autorizar depósito judicial e bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
O casal afirma que o rombo ultrapassa os R$ 500 mil e que, enquanto buscavam respostas, precisaram emitir notas fiscais sem receber os valores correspondentes, o que gerou débitos fiscais. Segundo o relato, tiveram de parcelar mais de R$ 40 mil.
Repercussão e sinais de alerta
Após a divulgação do caso, Gustavo Catunda e Robert Rosselló dizem que outros criadores os procuraram relatando problemas semelhantes com a mesma agência, o que, segundo eles, indica que o episódio pode não ser isolado.
Os relatos destacam um ambiente de pressão e opacidade, descrito pelos influenciadores como “terrorismo psicológico”, com orientações para não falar com marcas ou colegas e para confiar exclusivamente na agência, o que dificultou a checagem independente das contas.
Além do impacto financeiro, o casal também relata consequências pessoais, incluindo problemas de saúde relacionados ao estresse, e perda de confiança nas relações profissionais.
Como evitar casos parecidos, segundo especialistas
Ouvida pelo g1, a advogada especializada em direito digital Mayra Mega Itaborahy recomenda cláusulas contratuais que priorizem transparência financeira e limitem poderes excessivos da agência.
Ela destaca pontos básicos que devem constar nos contratos, como limitar o poder da agência, exigir autorização prévia e por escrito do influenciador para quaisquer acordos, e garantir acesso do criador a todos os contratos feitos em seu nome, incluindo valores, prazos e obrigações.
A advogada alerta que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve apresentar, sempre que solicitado, contratos com empresas, comprovantes de pagamento e prestações de contas detalhadas, sob pena de aumentar o risco de retenção indevida de valores e de configuração de crime, nos termos do art. 168 do Código Penal.
Modelos mais seguros citados por especialistas incluem repasses diretos ao influenciador, uso de contas de garantia ou pagamentos separados, além de cláusulas claras sobre prazos, forma de pagamento, multas e rescisão. Manter organização de contratos e comprovantes, conforme a advogada, é essencial, pois “contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.
O g1 procurou os responsáveis pela agência Hello Group para comentar as acusações, mas, até a última atualização da reportagem citada, não houve retorno, segundo a fonte.