quinta-feira, junho 4, 2026

Influenciadores 2depais revelam como descobriram rombo de R$ 500 mil em contrato com agência, isolamento imposto e falta de prestação de contas

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Casal relata que exclusividade da Hello Group, atrasos recorrentes e proibições de contato com marcas ocultaram repasses, comprovantes cruzados expuseram o prejuízo e ação seguiu ao Ministério Público

Dois criadores de conteúdo, responsáveis pelo perfil 2depais, dizem ter descoberto um **prejuízo superior a R$ 500 mil** ao confrontar comprovantes enviados por marcas com as informações que a agência apresentava.

Segundo o relato da dupla, o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, enquanto eles eram orientados a evitar qualquer contato direto com anunciantes, o que impedia checagens independentes.

Com a documentação reunida, o casal buscou um advogado e levou o caso ao Ministério Público, conforme informação divulgada pelo g1.

Como o rombo veio à tona

Gustavo Catunda e Robert Rosselló, do 2depais, afirmam que inicialmente os atrasos nos repasses pareciam pontuais e vinham com explicações prontas, como dificuldades do mercado e burocracia das marcas.

Com o tempo, porém, os atrasos se tornaram frequentes e, sem acesso a contratos ou comprovantes, a dupla decidiu montar uma planilha própria para acompanhar campanhas e valores.

Ao contatar diretamente algumas empresas, receberam comprovantes mostrando que pagamentos haviam sido feitos meses antes, apesar de a agência afirmar o contrário. A partir desses documentos, perceberam que os pagamentos à Hello Group estavam em dia, e que os valores não vinham sendo repassados a eles.

Segundo os influenciadores, a parceria começou em 2021, quando o perfil ainda era pequeno, e a agência prometeu profissionalizar o trabalho. O contrato dava à Hello Group exclusividade para fechar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar os valores, com **divisão prevista de 70% para os influenciadores e 30% para a agência**.

Regras de isolamento e controle

O casal descreve que, ao longo da relação, recebeu orientações para não falar com marcas, nem comparar valores com outros criadores, nem manter contato com colegas, sempre sob o argumento de ser um cuidado com a imagem.

Segundo Robert, as instruções vinham apresentadas como proteção, e havia uma mensagem constante, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”, que ajudava a manter o isolamento.

Quando conseguiam acompanhar conversas, aparecia apenas a fase inicial das negociações, e a etapa financeira ficava sempre oculta. A falta de relatórios e de prestação de contas gerou, segundo eles, um ambiente de medo e dependência, descrito como “terrorismo psicológico”.

Impacto financeiro e pessoal

Sem os repasses, o casal relata ter sido obrigado a emitir notas fiscais sem receber o dinheiro correspondente, o que os levou a débitos fiscais e ao parcelamento de mais de R$ 40 mil. A pressão financeira, dizem, afetou a rotina da família e agravou a situação pessoal.

Robert contou que chegou a desenvolver uma doença autoimune ligada ao estresse, além de sentimentos de insegurança e desconfiança. A dupla também relatou que, após a divulgação do caso, outros criadores os procuraram relatando problemas semelhantes com a agência, o que, para eles, indica que não se trata de um episódio isolado.

Em documento encaminhado ao Judiciário, o advogado da dupla apontou que a situação pode configurar **apropriação indébita majorada**, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa. A ação pediu bloqueio de bens da agência e prestação de contas.

Em decisão mencionada pelo g1, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes para determinar o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, porém determinou que uma patrocinadora — com contrato de R$ 42 mil com a agência — pague a parte devida dos influenciadores diretamente a eles.

O que especialistas recomendam

Ouvida pelo g1, a advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, afirmou que cláusulas de **transparência financeira** são essenciais para reduzir riscos e evitar retenções indevidas.

Ela destaca como pontos básicos a constarem em contratos, cláusulas que limitem o poder da agência, exijam autorização prévia e por escrito do influenciador para acordos, e garantam ao criador acesso a todos os contratos feitos em seu nome, com valores, prazos e obrigações.

Itaborahy lembra que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve, sempre que solicitados, apresentar contratos com empresas, comprovantes de pagamento e prestações de conta detalhadas. A falta de documentos, segundo a advogada, aumenta o risco para o influenciador.

Segundo a especialista, o atraso no repasse caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e em casos graves pode configurar crime, **apropriação indébita (art. 168 do Código Penal)**. Ela alerta também para cláusulas que proíbem totalmente o contato direto entre influenciador e marcas, o que pode ser questionável juridicamente por ferir princípios de razoabilidade e boa-fé.

Modelos considerados mais seguros incluem repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou o uso de contas de garantia. Manter **contratos, comprovantes e registros escritos** é fundamental, pois, conforme a advogada, “contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.

O que fica do caso

O episódio com o 2depais acende alertas para criadores que trabalham com agências, especialmente para quem assina contratos que centralizam todos os poderes de negociação e recebimento. A falta de transparência financeira e a restrição de comunicação são sinais de alerta.

Para influenciadores, especialistas sugerem revisar cláusulas de exclusividade, exigir relatórios regulares, definir prazos e formas de pagamento, e negociar mecanismos que permitam checagens independentes dos repasses.

Gustavo e Robert esperam que o caso sirva de lição e de aviso para outros criadores, e pedem mais atenção às práticas contratuais no mercado de influenciadores, para que “mais ninguém caia em uma situação como essa”, conforme relato da dupla.

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