Investigação mostra como homens filmam mulheres à noite e vendem vídeos na internet, gerando bilhões de visualizações e lucros em canais globais
Rede internacional revela padrão de homens que filmam mulheres à noite em pontos de vida noturna, publicam vídeos com ângulos baixos e monetizam visualizações em diversas plataformas
Uma investigação internacional trouxe à tona uma prática que deixa mulheres inseguras e humilhadas, com gravações feitas sem consentimento durante saídas noturnas, especialmente em áreas de bares e casas noturnas.
Os vídeos, descritos por canais como “caminhadas” ou “conteúdo de vida noturna”, concentram-se quase exclusivamente em mulheres de saias e vestidos, filmadas muitas vezes de trás ou em ângulos baixos, expondo partes íntimas sem que elas percebam.
Ao todo, seus vídeos foram visualizados mais de três bilhões de vezes, nos últimos três anos, segundo a apuração divulgada, e dezenas de canais continuam ativos em redes como YouTube, TikTok, Facebook e Instagram, conforme informação divulgada pelo g1.
Como a prática opera nas ruas e nas plataformas
Os responsáveis por esses conteúdos gravam em áreas movimentadas à noite, frequentemente junto às entradas e saídas de casas noturnas, caminhando ao lado das mulheres ou fingindo olhar para o celular.
As filmagens são feitas de forma a destacar saias, decotes e movimentos de ajuste de roupa, o que resulta em imagens que depois aparecem como miniaturas provocativas e títulos que prometem ver mulheres em ambientes noturnos.
Os canais postam os vídeos em múltiplas plataformas, e alguns criadores chegam a organizar o material em empresas registradas, com páginas no Facebook e contas no YouTube que atraem centenas de milhares de seguidores.
Quem são os autores e como foram identificados
A investigação identificou operadores ligados a contas específicas, incluindo indivíduos que viajaram entre países para gravar e um motorista de táxi que filmava durante o turno de trabalho.
Em um caso documentado, dois irmãos foram observados na rua, usando câmeras colocadas na altura da cintura e máscaras em noites de festa, e vídeos com os mesmos ângulos surgiram em canais vinculados a eles dias depois.
Embora muitos neguem irregularidades e afirmem que registram apenas cenas de rua e vida noturna, vítimas relatam que não sabiam das gravações, e que a divulgação dos vídeos gerou medo e retraimento social.
Resposta das plataformas e lacunas legais
Após o contato feito pela apuração, algumas contas foram removidas em determinadas plataformas, o YouTube desativou duas contas vinculadas a um dos operadores, e o TikTok eliminou canais indicados pela investigação.
No entanto, diversos vídeos seguem disponíveis em outras redes, e especialistas apontam que gravar em locais públicos raramente é considerado crime, deixando a prática numa zona cinza da legislação.
Um advogado consultado descreve que esse tipo de conteúdo pode transitar entre delitos como voyeurismo e assédio, e que, para configurar assédio criminal, costuma ser necessário demonstrar uma linha de conduta, com dois ou mais incidentes relacionados.
Impacto nas vítimas e no negócio por trás dos vídeos
Muitas mulheres que aparecem nas gravações relatam sentir medo, paranoia e vergonha, e algumas deixam de sair à noite por causa do risco de serem filmadas.
Especialistas em economia digital calculam que o ecossistema pode ser muito lucrativo, com estimativas de que um vídeo com um milhão de visualizações gere, em média, milhares de dólares, o que incentiva a produção e a disseminação em massa.
Para as vítimas, a remoção de um vídeo representa apenas uma vitória parcial, pois as gravações podem permanecer em arquivos pessoais ou ser republicadas por outros canais, o que aumenta a sensação de vulnerabilidade e impotência.
O que pode mudar e caminhos para proteção
Organizações e autoridades têm discutido alternativas, incluindo ações civis e mudanças nas políticas das plataformas, para coibir a monetização de imagens obtidas sem consentimento.
Além de maior moderação pelas redes sociais, especialistas defendem legislação mais clara sobre gravações voyeuristas em espaços públicos, e mecanismos rápidos para remoção e responsabilização dos criadores que exploram imagens sem autorização.
Enquanto isso, a recomendação para quem aparece nesses vídeos é reunir evidências, denunciar às plataformas e buscar orientação jurídica, porque as vias civis e administrativas podem oferecer caminhos para reparação quando a esfera criminal se mostra limitada.
Investigação e relatos citados aqui foram reunidos a partir da apuração divulgada, conforme informação divulgada pelo g1.