quinta-feira, junho 4, 2026

IPO brasileiros voltam às bolsas, entenda por que PicPay e Agibank escolheram a Nasdaq com juros a 15% e o que muda para o mercado

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Por que empresas brasileiras fazem IPO nos EUA, como PicPay volta após quatro anos e por que a Selic a 15% ao ano afetou o apetite por risco entre investidores

O retorno de ofertas públicas de ações de empresas do Brasil começou a aparecer novamente no exterior, com o banco digital PicPay realizando a primeira operação após quatro anos de hiato.

Outra companhia anunciada é o Agibank, também com listagem prevista nos Estados Unidos, em decisões que revelam limitações locais para captar recursos.

Essas tendências e números, incluindo a taxa de juros brasileira, foram levantados por especialistas e reportados, conforme informação divulgada pelo g1

Por que a Nasdaq e não a B3?

A escolha por mercados americanos passa por vários fatores, incluindo onde concorrentes já estão listados e a percepção de maior demanda por ações fora do país.

Conforme especialistas citados pelo g1, no caso do PicPay, empresas do mesmo setor, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, já estão listadas em Wall Street, o que influencia a decisão das companhias.

Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, lembra que, “essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”, conforme informação divulgada pelo g1

Juros altos, renda fixa e menor apetite por risco

Um dos motivos centrais para a escassez de IPO brasileiros nos últimos anos foi a escalada dos juros locais, que tornaram investimentos em renda fixa mais atraentes.

Atualmente, a Selic está em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, e isso alterou a dinâmica de alocação de recursos dos investidores.

Como explicou Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.

Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, acrescentou que “essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”, conforme informação divulgada pelo g1

Greenlees também ressaltou o efeito sobre a indústria de fundos, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Contexto global e comparação com os EUA

Nos Estados Unidos, o ciclo é diferente, porque o Federal Reserve já começou a reduzir custos de financiamento, o que favoreceu o volume de operações e o apetite por risco.

No mercado americano, “o ciclo de cortes de juros começou em setembro do ano passado, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%. Desde então, realizou mais dois cortes. Atualmente, as taxas estão na faixa de 3,50% a 3,75%”, conforme informação divulgada pelo g1

Essa diferença entre os ciclos de juros ajuda a explicar por que algumas empresas brasileiras preferem listar nos EUA, onde a liquidez e a base de investidores voltada a ações podem ser maiores no momento.

O que esperar para os próximos meses

A perspectiva de cortes na Selic pelo Banco Central do Brasil traz alguma esperança de retomada para IPO brasileiros, ainda que de forma gradual.

Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual, e isso já alimenta conversas sobre voltar a lançar ofertas no mercado doméstico.

Na avaliação de Greenlees, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.

Bruno Saraiva afirmou que “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, e acrescentou que “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro.”

O retorno dos IPO brasileiros deve ser observado de perto por empresas e investidores, porque ele depende tanto da trajetória dos juros quanto de fatores externos, como o cenário geopolítico e sinais de disciplina fiscal.

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