IPOs brasileiros voltam a aparecer em 2026, entenda por que PicPay e Agibank escolheram Wall Street, como a Selic em 15% influenciou a pausa e o que vem a seguir
Explicamos por que empresas brasileiras têm optado por listagem nos EUA, o papel dos juros altos na queda dos IPOs brasileiros, e por que cortes da Selic podem reativar ofertas no país
O retorno de ofertas públicas de ações de empresas brasileiras tem chamado atenção, com o PicPay fazendo o primeiro IPO nacional em quatro anos, e o Agibank anunciando também sua intenção de listar, ainda sem data definida.
Empresas como essas escolheram listar nos Estados Unidos, hábito já visto antes com nomes do setor financeiro e de pagamentos, e essa opção revela limitações do mercado local, entre elas o custo do dinheiro e o menor apetite por risco.
Nas próximas seções, explico as razões dessa preferência, os efeitos dos juros e o que especialistas esperam para os meses que vêm, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que os IPOs brasileiros ficaram em hiato
O principal motivo apontado por executivos e analistas é a taxação do custo do capital, com a **Selic atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos**, o que torna títulos de renda fixa muito atrativos frente a ações.
Em 2021, ano em que o Brasil registrou mais de 40 IPOs, a Selic subiu de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, um aumento de 7,25 pontos percentuais. Desde então, o juro seguiu em alta até alcançar 15% em junho do ano passado, incremento de 5,75 p.p. em relação a 2021.
Segundo Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, complementa que “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”, o que reduziu ainda mais o capital disponível para novas ofertas.
Por que empresas brasileiras têm escolhido o mercado americano
Além dos juros, há motivos estratégicos que levam companhias a preferir Wall Street, entre eles a presença de pares e investidores globais para setores como fintechs e pagamentos.
No caso do PicPay, concorrentes e referências do setor, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, estão listados nos Estados Unidos, tornando a Bolsa americana um ambiente natural para comparar valuation e atrair investidores especializados.
O ciclo de cortes de juros nos EUA também ajuda, o Federal Reserve iniciou quedas em setembro do ano passado e, após alguns cortes, deixou as taxas na faixa de 3,50% a 3,75%, cenário mais amigável para ações do que o brasileiro.
O que esperar para o mercado de capitais e pelos próximos IPOs brasileiros
Consultores e banqueiros ouvidos indicam que a perspectiva de início de queda da Selic já no primeiro trimestre traz otimismo, mesmo que tímido, para uma retomada de operações na B3 nos próximos meses.
O boletim Focus projeta que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma queda de 2,75 p.p. ante o nível atual, sinal que pode reativar parte da demanda por ações.
Greenlees afirma, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.
Saraiva avalia o horizonte com cautela, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, e acrescenta que, se vier uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027 e uma trajetória contínua de queda dos juros, “acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.
Conclusão
O retorno dos IPOs brasileiros depende de uma combinação de fatores macroeconômicos e estratégicos, com juros menores e sinais fiscais mais claros como catalisadores importantes.
No curto prazo, algumas companhias testarão o mercado americano, enquanto outras podem voltar a considerar a B3 à medida que a Selic cair e a demanda por ações se recuperar.