Entenda os motivos que levam empresas brasileiras a listar nos EUA, entre juros altos, menor apetite por risco, comparação entre Nasdaq e B3, e o que esperar
A primeira oferta pública inicial de ações envolvendo uma empresa brasileira após quatro anos ocorre nesta quinta-feira, com o banco digital PicPay listando na Nasdaq, em Nova York.
Outra companhia que anunciou plano de abertura de capital recentemente foi o Agibank, ainda sem data definida, e também com opção por mercados americanos.
Especialistas apontam que a combinação de juros elevados e menor disposição ao risco entre investidores explica por que muitos grupos preferem lançar ações fora do Brasil, em vez de ir à B3.
conforme informação divulgada pelo g1
Por que juros altos afastaram investidores
Uma peça central desse cenário é a taxa básica de juros, a Selic, que chegou a 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos. Juros mais altos tornaram a renda fixa muito atraente em comparação com ações.
Como explicou Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.
O efeito sobre fundos de ações foi forte, e há registros de perdas e fechamento de estratégias, conforme afirmou Bruno Saraiva, do Bank of America, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.
Em 2021, ano em que o país registrou mais de 40 IPOs, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, e, desde então, continuou em alta até alcançar 15% em junho do ano passado, “um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021”.
Além disso, como alertou Greenlees, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.
Por que escolheram os EUA, e não aqui
A decisão de listar em Wall Street envolve fatores variados, como setor, tese de investimento, histórico da empresa e onde concorrentes estão listados. Leonardo Resende, da B3, resumiu, “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”.
No segmento financeiro e de pagamentos, por exemplo, nomes como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP já têm histórico de listagens no exterior, o que influi na decisão de empresas como PicPay.
Outro ponto é o momento dos bancos centrais: nos EUA o ciclo já mudou e o Federal Reserve iniciou cortes em setembro do ano passado, quando reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%. Desde então houve mais dois cortes, e atualmente as taxas estão na faixa de 3,50% a 3,75%.
Resende também ponderou que “Abrir capital no exterior não é uma solução com resposta única para todos os casos. Vemos algumas companhias testando o mercado americano, mas também temos conversas com empresas interessadas em fazer uma emissão de ações na B3”.
O que esperar para os IPOs brasileiros nos próximos meses
A expectativa de analistas é que um ciclo de queda gradual da Selic no Brasil reanime parte do mercado de capitais. Dados do boletim Focus apontam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.
Para Roderick Greenlees, essa redução pode ser suficiente para retomar algumas ofertas, “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.
Bruno Saraiva acrescenta cautela, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”.
No curto prazo, a combinação de juros em queda, sinais sobre contas públicas e o apetite de investidores por setores específicos deve determinar se mais empresas preferirão listar na Nasdaq ou voltar a emitir ações pela B3, no Brasil.