IPOs brasileiros voltam com PicPay e Agibank, por que empresas estão optando pela Nasdaq agora e como a queda da Selic pode reaquecer o mercado

Por que empresas brasileiras escolhem a Nasdaq, como juros altos reduziram o apetite por risco e o que a previsão de cortes na Selic muda para os IPOs

Três anos após a última onda de ofertas públicas, os **IPOs brasileiros** começam a reaparecer, com o banco digital PicPay abrindo capital e o Agibank anunciando a intenção de listar nos Estados Unidos.

A escolha por bolsas estrangeiras reúne fatores de mercado, concorrência setorial e o apetite global por ações, em um momento em que a economia local convive com juros muito elevados.

As informações abaixo trazem os motivos por trás desse movimento e o que pode mudar com a expectativa de cortes na Selic, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que os IPOs desaceleraram no Brasil

Um dos principais motivos para a queda nas ofertas é a taxa básica de juros, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos. Juros tão altos tornam a renda fixa mais atraente em relação à renda variável, reduzindo a demanda por ações.

O próprio mercado registrou mudanças rápidas, por exemplo, em 2021 a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, ano em que o país teve mais de 40 IPOs.

Desde então, a Selic seguiu em trajetória de alta, até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021. Essa dinâmica afetou fundos de ações e multimercados, que perderam recursos e foram, em muitos casos, descontinuados.

Como resume Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.

Por que muitas empresas escolhem os EUA para abrir capital

O cenário internacional ajudou a construir um ambiente mais atrativo para listagens em Wall Street, onde o ciclo de cortes do Federal Reserve começou em setembro do ano passado, com uma redução de 0,25 p.p. para a faixa de 4% a 4,25%, seguida por mais dois cortes, levando a taxas atualmente na faixa de 3,50% a 3,75%.

Listar nos EUA também pode fazer sentido por razões setoriais e competitivas. Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, afirma, “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”.

No caso do PicPay, outras empresas do setor, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP, já estão na bolsa americana, o que facilita comparações e atração de investidores internacionais.

Impacto dos juros e a visão dos bancos de investimento

Para executivos do mercado, a alta dos juros desarticulou um ecossistema de captação. Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, diz, “Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”.

Roderick Greenlees acrescenta que, “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

O que esperar à frente para os IPOs brasileiros

O fator que pode reverter parte desse quadro é a perspectiva de queda da Selic. Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.

Especialistas avaliam que essa redução não traz um retorno instantâneo ao nível de atividade visto em 2021, mas já é suficiente para reabrir algumas operações. Greenlees diz que, para os padrões brasileiros, “já é um bom sinal”.

Os analistas também apontam que fatores como o cenário geopolítico global e sinais de compromisso com as contas públicas por parte do novo governo influenciam o apetite por ações.

Bruno Saraiva resume a expectativa, “Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, e completa com uma projeção de médio prazo, “Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro”.

Enquanto isso, empresas como PicPay e Agibank testam o mercado americano, e a volta dos IPOs brasileiros deve ocorrer de forma gradual, acompanhando a queda dos juros e a recuperação do apetite por risco entre investidores locais.