quinta-feira, junho 4, 2026

IPOs brasileiros voltam em 2026, entenda por que PicPay e Agibank escolheram a Nasdaq, impacto da Selic a 15% e a expectativa de cortes do BC

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Ao listar ações nos EUA, empresas buscam maior demanda e valuation, enquanto juros em 15% e menor apetite por risco freiam ofertas na B3, segundo especialistas

A primeira oferta pública inicial de ações em quatro anos acontece nesta quinta-feira, com o banco digital PicPay abrindo capital na Nasdaq, e o Agibank também anunciou IPO, sem data definida.

O movimento marca o retorno de empresas brasileiras ao mercado acionário, mas com uma tendência clara de optar por bolsas estrangeiras, em especial a americana, por fatores que vão além da simples captação de recursos.

As explicações para essa escolha envolvem juros elevados, menor apetite por risco e comparativos setoriais, conforme informação divulgada pelo g1

Por que os juros altos frearam os IPOs no Brasil

O cenário doméstico ficou marcado por uma Selic elevada, atualmente em 15% ao ano, o maior patamar em 20 anos, e isso mudou a lógica de investimento. Juros altos tornaram a renda fixa mais atraente e drenaram recursos dos fundos de ações.

Em 2021, ano em que o país registrou mais de 40 IPOs, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais, de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro, e depois seguiu em alta até alcançar 15% em junho do ano passado, um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021.

Como explica Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, “O que aconteceu no Brasil é que os juros subiram e não recuaram. Estamos falando de uma taxa real de dois dígitos, que é muito alta. Isso acaba inibindo investidores de fazer qualquer coisa que não seja comprar um instrumento de renda fixa”.

O efeito prático foi a redução do número de fundos multimercados e de ações, e uma demanda mais fraca por novas ofertas, o que manteve o mercado de IPOs doméstico em pausa.

Por que escolheram os EUA e não a B3

Nos Estados Unidos, o ciclo já registrou cortes de juros, com o Federal Reserve reduzindo taxas desde setembro. A combinação de maior liquidez e presença de concorrentes listados no exterior influenciou decisões de empresas brasileiras.

Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, diz que “Essa escolha depende de uma série de fatores, definidos caso a caso. Envolve uma análise do setor, da tese de investimento, do histórico da empresa e de onde os concorrentes estão listados, seja no Brasil ou em outros mercados”.

No setor financeiro e de pagamentos, por exemplo, nomes como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP já estão em Wall Street, o que ajuda a formar comparáveis e a atrair investidores globais dispostos a avaliar empresas do mesmo setor.

O que esperar para 2026 e além

Há expectativa de melhora, com sinais de que o Banco Central pode iniciar cortes na Selic no primeiro trimestre. O boletim Focus aponta que a Selic deve terminar o ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.

Bruno Saraiva, corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America no Brasil, observa que “Se você observar os fundos multimercados e, principalmente, os de ações, eles foram praticamente extintos nos últimos dois ou três anos. Muitos acabaram sendo descontinuados por causa desse cenário”.

Roderick Greenlees também pondera que “Não sei se essa queda esperada dos juros é suficiente para termos um mercado abundante como no passado, mas é suficiente para retomar algumas ofertas. A taxa ainda deve permanecer elevada, mas, para os padrões brasileiros, já é um bom sinal”.

Em resumo, a volta dos IPOs brasileiros pode ser gradual e cautelosa: empresas que têm comparáveis no exterior e setores com apelo global tendem a testar a Nasdaq, enquanto o aquecimento da B3 dependerá de queda mais consistente da Selic e de sinais claros sobre contas públicas e agenda de reformas.

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