Com mudanças nas salvaguardas agrícolas e o possível alinhamento a Alemanha e Espanha, o voto da Itália pode garantir os 65% da população exigidos para aprovar o acordo UE-Mercosul
Nos próximos dias, a posição da Itália deve definir se o acordo UE-Mercosul avança no Conselho da União Europeia, ou se fica travado por resistências internas.
O país vinha demonstrando preocupação com impactos no setor agrícola, mas fontes indicam sinalização favorável, o que pode destravar a ratificação do tratado.
As informações são baseadas em apuração, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que o voto da Itália é determinante
A ratificação do acordo UE-Mercosul exige maioria qualificada no Conselho Europeu, o que significa apoio de países que representem ao menos 65% da população do bloco, além de um mínimo de 15 votos nacionais.
Na avaliação de especialistas, sem o apoio de um país populoso como a Itália, fica muito difícil atingir esse patamar. José Pimenta, diretor de Comércio Internacional da BMJ Consultores Associados, diz, “Sem a Itália, que é um país populoso, fica muito difícil atingir esse patamar. Se ela se alinhar à França, o acordo pode sofrer um revés. Por outro lado, caso fique ao lado de Alemanha e Espanha, o tratado fica praticamente aprovado na UE”.
Esse peso institucional transformou Roma em um voto de Minerva no processo final de aprovação.
O que mudou nas salvaguardas agrícolas
Uma das razões da hesitação italiana foi a oferta de salvaguardas agrícolas no texto final. Esses mecanismos permitem limitar temporariamente importações quando há risco de prejuízo aos produtores locais.
As mudanças aprovadas no texto tornam o acionamento dessas barreiras mais simples e mais rápido. Antes, era necessário comprovar um aumento anual de 10% nas importações para justificar a suspensão das tarifas, agora o gatilho foi reduzido.
Pelas novas regras, basta um crescimento médio de 5% ao longo de três anos para produtos considerados sensíveis, como carne bovina e aves. O prazo de investigação caiu de seis para três meses, ou para até dois meses no caso de produtos agrícolas, e deixou de ser exigida a comprovação detalhada de dano econômico, prevalecendo a presunção de prejuízo.
Resistência e apoios no bloco
A França reafirmou oposição, com o presidente Emmanuel Macron declarando que a França votará contra o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Ao lado dela, Irlanda, Hungria e Polônia também manifestaram rejeição.
Por sua vez, Alemanha e Espanha mantêm apoio firme ao avanço do tratado. O chanceler alemão Friedrich Merz e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez defendem que a União Europeia leve adiante o acordo para preservar credibilidade na política comercial e abrir mercados.
Impactos práticos e próximos passos
O acordo UE-Mercosul prevê redução ou eliminação gradual de tarifas, além de regras sobre comércio de bens, serviços, investimentos e padrões regulatórios, e é negociado há mais de 25 anos.
Do lado europeu, havia expectativa de assinatura em dezembro de 2025, mas a articulação francesa levou a Comissão Europeia a rever o cronograma para garantir mais proteção ao setor agrícola.
Em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu escreveram, “Gostaríamos de transmitir nosso firme compromisso em proceder com a assinatura do Acordo de Parceria e do Acordo Provisório de Comércio no início de janeiro, em um momento a ser acordado entre ambas as partes”, segundo o documento.
Na prática, se a Itália confirmar apoio na reunião dos embaixadores da UE, realizada nesta sexta, aumenta muito a probabilidade de aprovação no Conselho, caso contrário, o texto pode ficar parado por mais tempo.
Especialistas acompanham agora o posicionamento de Roma e a reação dos demais Estados-membros, porque a combinação entre salvaguardas mais flexíveis e o alinhamento político será decisiva para o futuro do pacto.