Liquidação extrajudicial da CBSF ex-Reag: o que o Banco Central apontou, o impacto sobre fundos e a ligação com o Banco Master e João Carlos Mansur
Análise da liquidação extrajudicial da CBSF pelo Banco Central, motivos apontados, efeitos para mais de 80 fundos administrados e conexões com as operações contra o Banco Master
A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial da CBSF, antiga Reag Trust DTVM, encerrou imediatamente as operações da administradora que atuava em mais de 80 fundos de investimento.
A medida atinge a instituição, não os fundos em si, que permanecem ativos, mas precisam buscar novas instituições para assumir sua administração, segundo o BC.
O caso integra um conjunto de apurações relacionadas ao Banco Master e a operações investigadas pela Polícia Federal e outras autoridades, conforme informação divulgada pelo g1.
O que o Banco Central afirmou e as razões formais
O Banco Central informou que a liquidação foi “motivada por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN [Sistema Financeiro Nacional]”.
Segundo o BC, a empresa “se enquadra no segmento S4 da regulação prudencial”, ou seja, é de pequeno porte e sujeita a regras mais simples, e “representa menos de 0,001% do ativo total ajustado do SFN”.
O órgão também destacou que “O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis”, e que, pela lei, “os bens dos controladores e dos ex-administradores da empresa estão bloqueados”.
Impacto imediato nos fundos e no mercado
Com a liquidação, todas as operações da administradora foram encerradas de imediato, e gestores e cotistas terão de encontrar novos administradores para os fundos até então geridos pela CBSF.
A CBSF, controlada pelo Grupo Reag, atuava sobretudo como administradora de mais de 80 fundos de investimento, e a medida do BC visa preservar a estabilidade do sistema financeiro, já que a companhia representa fatia muito reduzida do SFN.
Histórico do Grupo Reag e do ex-executivo João Carlos Mansur
A Reag é um grupo financeiro independente que chegou a administrar R$ 299 bilhões, segundo registros públicos, e teve empresas como a Reag Investimentos entre as maiores gestoras independentes do país.
João Carlos Mansur, fundador e ex-executivo da Reag Investimentos, foi alvo de mandados na segunda fase da Operação Compliance Zero, e já havia renunciado ao cargo de presidente do conselho da gestora após outra investigação relevante.
Mansur, que é bacharel em ciências contábeis e afirma ter estruturado mais de 200 fundos, aparece nas apurações ligadas ao Banco Master, e endereços ligados a ele foram objeto de busca e apreensão pela Polícia Federal.
Operações policiais e conexões com o Banco Master
A Reag e a CBSF surgem em investigações mais amplas sobre uso de fundos e fintechs para ocultação de recursos, dentre elas a Operação Carbono Oculto, que apurou esquema no setor de combustíveis com omissão de recolhimento de mais de R$ 7,6 bilhões em impostos.
Segundo as investigações, ao menos 40 fundos, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, teriam sido controlados direta ou indiretamente pela organização investigada na Carbono Oculto, e houve identificação de movimentação superior a R$ 46 bilhões em ao menos uma fintech entre 2020 e 2024.
No caso do Banco Master, a Operação Compliance Zero apontou problemas de solvência relacionados à captação via CDBs com juros muito acima do mercado e a suspeita sobre a venda de carteiras de crédito ao BRB no valor de R$ 12,2 bilhões, o que levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Master em novembro.
Na primeira fase da operação foi preso o controlador do Master, Daniel Vorcaro, e na segunda fase foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão, além de medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões, com apreensão de carros e itens de luxo.
O desdobramento que inclui a liquidação extrajudicial da CBSF mostra a sequência de apurações do BC e de autoridades policiais, e indica que ainda podem ser aplicadas sanções administrativas e comunicações a outras autoridades, conforme o próprio Banco Central informou.