Macron critica aplicação provisória do acordo UE-Mercosul, chama decisão de ‘má surpresa’ e alerta para risco à agricultura francesa

Com a Comissão anunciando a aplicação provisória, a França diz que a medida é desrespeitosa, e produtores avisam que o acordo UE-Mercosul pode elevar importações de carne bovina, açúcar e aves

Emmanuel Macron classificou a decisão da União Europeia como uma surpresa negativa para a França, e afirmou que o Parlamento Europeu foi desrespeitado, em reação ao anúncio de aplicação provisória do acordo UE-Mercosul.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que, quando os países estiverem prontos, a Comissão seguirá com a aplicação provisória do tratado, abrindo caminho para a entrada em vigor de partes do acordo antes de ratificações finais.

O texto negociado entre a UE e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai foi concluído após 25 anos de negociações, e o tratado pode eliminar cerca de 4 bilhões de euros em tarifas sobre exportações europeias, o que motiva apoio e críticas entre Estados-membros e setores produtivos, conforme informação divulgada pelo g1.

Reação de Paris e preocupações do setor agrícola

O governo francês, maior produtor agrícola da União Europeia, é a principal voz contrária ao acordo UE-Mercosul, por temer aumento significativo das importações de carne bovina, açúcar e aves a preços mais baixos, com impacto direto nos produtores locais.

Após a declaração da Comissão, Macron disse, a jornalistas, que, “Para a França, é uma surpresa, uma surpresa ruim, e, para o Parlamento Europeu, é desrespeitoso”, posicionamento que reforça a pressão política interna contra a aplicação imediata.

Em comunicado, a associação francesa da indústria da carne, Interbev, pediu aos parlamentares franceses no Parlamento Europeu que atuem para “impedir que a Comissão contorne o debate democrático”, mostrando preocupação com o processo político que envolve o acordo.

O que muda com a aplicação provisória do acordo

A aplicação provisória anunciada pela Comissão significa que, uma vez em vigor, partes do tratado entrarão em prática sem a conclusão de todas as ratificações nacionais, acelerando a eliminação de tarifas e regras de acesso a mercados.

Ursula von der Leyen afirmou, em declaração, “Já disse antes: quando eles estiverem prontos, nós também estaremos”, e acrescentou, “Com isso, a Comissão seguirá com a aplicação provisória do acordo.”, justificando a ação com base nas ratificações já encaminhadas por alguns países.

Votação, ratificações e próximos passos

Em votação realizada em janeiro, 21 países da União Europeia apoiaram o acordo. Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra, enquanto a Bélgica se absteve, conforme o levantamento divulgado.

O acordo já foi ratificado pela Argentina e pelo Uruguai, e, na quinta-feira anterior, ambos confirmaram esse passo. No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou o texto em 25 de janeiro, e o processo segue agora para análise do Senado brasileiro.

Impactos econômicos e geopolíticos

Países favoráveis, como Alemanha e Espanha, defendem que o acordo UE-Mercosul é essencial para compensar perdas comerciais causadas por tarifas dos Estados Unidos, e para reduzir dependência de minerais estratégicos da China, além de ampliar o acesso a mercados sul-americanos.

Por outro lado, agricultores europeus alertam para concorrência com produtos a preços mais baixos, o que pode agravar protestos e tensões internas, enquanto setores industriais europeus esperam benefícios com a eliminação de aproximadamente 4 bilhões de euros em tarifas sobre exportações, caso o tratado avance integralmente.