Macron critica aplicação provisória do acordo UE-Mercosul, diz que medida é surpresa ruim e alerta sobre impacto nos produtores agrícolas franceses
Decisão da Comissão Europeia de aplicar provisoriamente o acordo UE-Mercosul provoca reações em Paris, com alertas sobre aumento de importações e pressão sobre produtores locais
O presidente da França, Emmanuel Macron, classificou nesta sexta-feira a decisão da União Europeia de acelerar a aplicação provisória do acordo UE-Mercosul como uma “má surpresa” para o país, e afirmou que o ato é desrespeitoso com o Parlamento Europeu.
A França, maior produtora agrícola da União Europeia, tem manifestado forte oposição ao tratado, por entender que ele pode ampliar significativamente as importações de carne bovina, açúcar e aves a preços inferiores, prejudicando produtores nacionais que já têm realizado protestos.
O anúncio sobre a aplicação provisória do acordo foi feito pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e representa um avanço após a ratificação por parte de países do Mercosul, em um processo que vinha se arrastando por décadas, conforme informação divulgada pelo g1.
Reação de Macron e pedido por respeito ao Parlamento
Em pronunciamento a jornalistas no Palácio do Eliseu, em Paris, após reunião com o primeiro-ministro esloveno, Robert Golob, Macron afirmou que a decisão foi uma surpresa ruim para a França, e que ela desrespeita o Parlamento Europeu.
O presidente francês tem ressaltado o risco concreto de aumento de importações de produtos como carne bovina, açúcar e aves, com preços mais baixos, o que pode agravar a situação dos agricultores franceses, que já organizam protestos em diversas regiões.
Pressão de indústrias e apelo ao Parlamento Europeu
A associação francesa da indústria da carne, Interbev, emitiu um comunicado pedindo aos parlamentares franceses no Parlamento Europeu que atuem para “impedir que a Comissão contorne o debate democrático”, uma cobrança direta ao modo como a aplicação provisória foi anunciada.
Votos no Parlamento Europeu em janeiro mostraram divisão, com 21 países apoiando o acordo, enquanto Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra, e a Bélgica se absteve.
Contexto do acordo e calendário de ratificações
O tratado entre a União Europeia e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai foi concluído em janeiro, após 25 anos de negociação, e pode eliminar cerca de 4 bilhões de euros em tarifas sobre exportações europeias, tornando-se o maior acordo do bloco em termos de redução potencial de impostos de importação.
A decisão da Comissão Europeia pela aplicação provisória ocorre após a ratificação do acordo pela Argentina e pelo Uruguai, e depois de a Câmara dos Deputados do Brasil aprovar o texto, medida que segue agora para análise do Senado.
Argumentos de países favoráveis e preocupações geopolíticas
Países como Alemanha e Espanha defendem o acordo UE-Mercosul como forma de compensar perdas com tarifas dos Estados Unidos e para reduzir a dependência da China em minerais estratégicos, destacando ganhos comerciais e geopolíticos.
Por outro lado, a França sustenta que a liberalização sem salvaguardas suficientes pode causar danos ao setor agrícola nacional, e insiste em um debate mais amplo e transparente no Parlamento Europeu, enquanto representantes do bloco afirmam que a aplicação provisória respeita trâmites legais após ratificações no Mercosul.
O desenrolar desse impasse vai depender das próximas decisões em Bruxelas e em capitais europeias, e também das votações que ainda precisam ocorrer nos parlamentos nacionais envolvidos.