Mercado de trabalho europeu desacelera, contratações caem para 0,6% em 2026, e “Grande Hesitação” com IA ameaça empregos na indústria

Queda nas contratações, receio de automação e alta cautela de trabalhadores elevam incerteza, enquanto países como Espanha e Portugal seguem gerando vagas em setores específicos

O mercado de trabalho europeu perdeu força desde o auge da chamada Grande Demissão, e a tendência de saída voluntária deu lugar a uma Grande Hesitação, com empregados menos dispostos a trocar de vaga diante de incertezas.

A desaceleração afeta especialmente a indústria, e a combinação de enfraquecimento da demanda, custos de energia e o avanço da inteligência artificial tem ampliado o nervosismo entre empregadores e trabalhadores.

Os dados e depoimentos que embasam este panorama foram apurados por agências internacionais e compilados por veículos de imprensa, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que as contratações estão em queda

O Banco Central Europeu estima que o mercado de trabalho da zona do euro vá crescer mais lentamente em 2026, a 0,6%, ante 0,7% em 2025, o que indica uma perda de dinamismo regional. Em termos práticos, “cada diferença de 0,1 ponto percentual representa em torno de 163 mil novos empregos a menos criados”, segundo a mesma apuração.

Há apenas três anos, a zona do euro criou cerca de 2,76 milhões de novos empregos, quando o crescimento era mais robusto, na casa de 1,7%. A migração, que ajudou a suprir oferta de mão de obra, também está se estabilizando ou diminuindo, reduzindo esse amortecedor.

Setores e países mais afetados

A Alemanha é um dos termômetros da desaceleração, e mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos neste ano, conforme levantamento do think tank econômico IW, de Colônia. A base industrial alemã sofreu perdas, principalmente nos setores automotivo, de máquinas, metalúrgico e têxtil, com mais de 120 mil postos eliminados segundo dados do governo.

Mesmo assim, nem toda a Europa segue o mesmo ritmo. Espanha, Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia devem apresentar crescimento do emprego, apoiados por setores como turismo e serviços, segundo o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional.

O impacto da inteligência artificial, entre medo e transformação

A adoção de IA na Europa tem sido mais lenta do que nos Estados Unidos e na China, mas isso não evitou temores generalizados. Um estudo da EY mostrou que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA possa pôr seus empregos em risco, e 74% acredita que as empresas precisarão de um quadro de funcionários menor por causa da tecnologia.

Pesquisas alemãs projetam que até 1,6 milhão de empregos possam ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040, ainda que o setor de tecnologia possa criar cerca de 110 mil novos postos. Pesquisadores e institutos divergem entre visões de transformação, redistribuição do trabalho e cenários mais pessimistas, como o surgimento de um “precariado da IA”.

O que muda para trabalhadores e empresas

Com menos vagas e um clima econômico mais difícil, trabalhadores tendem a evitar mudanças arriscadas, e empresas adotam maior cautela ao contratar, dando origem ao termo career cushioning, o preparo discreto de um plano B em caso de demissão.

Embora manchetes sobre cortes na indústria afetem a percepção, autoridades e especialistas lembram que ainda há forte demanda em segmentos como varejo, saúde, logística e engenharia, e que a adoção de IA pode libertar humanos de tarefas repetitivas para funções de maior valor.

O cenário exige políticas públicas e estratégias empresariais que combinem requalificação, investimento em setores com crescimento e rede de proteção social, para evitar que a queda nas contratações se traduza em desemprego prolongado e perda de oportunidades, questão que já move debates nas capitais europeias.