Mercado europeu contrata menos e acende alerta sobre o futuro do trabalho, com ‘Grande Hesitação’, cortes na indústria e risco de perda de empregos por IA até 2040
Queda nas vagas, desaceleração salarial e avanço da inteligência artificial pressionam o futuro do trabalho, alimentando a ‘Grande Hesitação’ e forçando empresas a revisar contratações
Por um período após a pandemia, os trabalhadores europeus tiveram vantagem sobre empregadores, com trabalho remoto e benefícios que reduziram a rotatividade.
Essa fase de saída maciça, chamada ‘Grande Demissão’, deu lugar à ‘Grande Hesitação’, em que empregados ficam mais cautelosos para pedir demissão diante da incerteza econômica e tecnológica.
O cenário combina enfraquecimento da indústria, desaceleração salarial e receio da automação, com sinais claros de menor crescimento do emprego na zona do euro, conforme informação divulgada pelo g1
Do ‘Grande Demissão’ à ‘Grande Hesitação’
Especialistas lembram que a onda de saídas voluntárias pós-pandemia mudou o equilíbrio de forças entre trabalhadores e empresas, gerando termos como ‘demissão silenciosa’ e ‘career cushioning’, preparação discreta de um plano B diante de instabilidade.
Uma pesquisa de 2022 da McKinsey mostrou que ‘um terço dos trabalhadores europeus considerava deixar o emprego no período de três a seis meses’, dado que ajudou a explicar a alta demanda por talentos naquele momento.
Angelika Reich, consultora da Spencer Stuart, afirmou que aquilo era ‘um número impressionante para uma região com uma rotatividade [de pessoal] tradicionalmente baixa’, e que o mercado hoje ‘esfriou’, deixando funcionários mais cautelosos sobre mudar de emprego.
Dados recentes e setores mais afetados
O Banco Central Europeu projeta que o mercado de trabalho da zona do euro deve crescer 0,6% em 2026, ante 0,7% em 2025, uma desaceleração que pode parecer pequena, mas tem impacto real, já que cada diferença de 0,1 ponto percentual representa cerca de 163 mil novos empregos a menos.
Há três anos, a zona do euro criou cerca de 2,76 milhões de novos empregos enquanto crescia a uma taxa de 1,7%, comparação usada pelos analistas para mensurar a perda de fôlego.
Na Alemanha, mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos este ano, segundo o think tank econômico IW, e o relatório aponta que a base industrial alemã perdeu mais de 120 mil postos recentemente por altos custos de energia, fraca demanda por exportação e concorrência externa.
O enfraquecimento aparece também nas projeções de desemprego, ‘O Banco da França espera que o desemprego no país aumente para 7,8%, enquanto no Reino Unido dois terços dos economistas entrevistados pelo jornal The Times acreditam que o desemprego pode subir para até 5,5%, ante os atuais 5,1%’.
A Polônia registrou aumento do desemprego para 5,6% em novembro, ante 5% um ano antes, e países como Romênia e República Tcheca também mostram elevação, enquanto o Índice de Gerentes de Compras (PMI) da indústria da zona do euro caiu para 48,8 em dezembro, leitura abaixo de 50,0 que indica contração.
Ameaça da inteligência artificial e previsões
A adoção de IA na Europa é mais lenta que nos Estados Unidos e na China, mas o temor entre trabalhadores já é significativo. Um estudo da EY afirmou que ‘um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA possa colocar seus empregos em risco, enquanto 74% acreditam que as empresas precisarão de um quadro de funcionários menor como resultado da tecnologia’.
O Instituto de Pesquisa de Emprego (IAB) projetou que ‘1,6 milhão de empregos somente na Alemanha poderiam ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040’, e a Agência Federal do Trabalho prevê que cargos altamente qualificados serão desproporcionalmente afetados, embora o setor de tecnologia possa ‘criar cerca de 110 mil novos empregos’.
Enzo Webe, do IAB, avaliou que a IA trará uma ‘transformação’ do mercado, ‘mas não a uma oferta menor’, sinalizando que a tecnologia pode remodelar funções mais do que simplesmente extingui-las.
Onde ainda há demanda e o que esperar para o futuro do trabalho
Apesar dos sinais de desaquecimento, nem toda a Europa vive o mesmo ritmo. Economias como Espanha, Luxemburgo, Irlanda, Croácia, Portugal e Grécia devem ter crescimento do emprego, apoiadas por setores específicos, turismo e, em alguns casos, recuperação interna.
Julian Stahl, especialista da Xing, lembra que ‘o que parecia uma escassez generalizada de trabalhadores durante a Grande Demissão virou algo mais específico a determinados setores’, citando fortes carências no varejo, saúde, logística, engenharia e funções altamente especializadas.
Bettina Schaller Bossert, da World Employment Confederation, alerta para o efeito de imagem provocado por manchetes sobre cortes, ‘Muitos jovens recém-formados acreditam que não há futuro no setor automotivo. Eles não estão interessados em seguir carreira [nas montadoras europeias], mesmo que existam novas e fantásticas oportunidades’.
Para o futuro do trabalho, analistas apontam que será necessário combinar requalificação profissional, políticas públicas que incentivem adoção responsável de tecnologia e estratégias empresariais que equilibrem automação e manutenção de emprego. A discussão sobre IA e empregos deve seguir no centro das decisões de governos e corporações nos próximos anos.