Milei planeja visitar a China e renovar parcerias comerciais, enquanto precisa conciliar o swap de US$ 5 bilhões, exportações de soja, carne e lítio e a pressão de Trump
O presidente argentino, Javier Milei, enfrenta um dilema geoeconômico, entre expandir negócios com a China e manter um alinhamento firme com o governo de Donald Trump.
Na campanha de 2023, Milei prometeu que não faria “negócios com a China” nem “com nenhum comunista”, mas desde então adotou medidas pragmáticas para reforçar reservas e comércio.
O impasse voltou ao centro do debate quando o presidente afirmou, no início de janeiro, que pretende viajar à China ainda este ano, enquanto Washington pressiona por maior influência nas Américas, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a China é estratégica para a Argentina
A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e está investindo em energia, lítio e infraestrutura, tornando-se uma fonte essencial de financiamento e mercado.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado, dados que mostram a profundidade da dependência comercial.
Em 2025, 70% das exportações argentinas para a China foram de soja, carne bovina e lítio, e o país renovou em 2024 e 2025 a parte ativa do acordo de swap cambial com a China, no valor equivalente a US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões).
O swap, que é uma troca temporária de moedas entre países, é usado para reforçar as reservas internacionais, um dos objetivos centrais do governo de Milei.
O alinhamento com os EUA e a «Doutrina Donroe»
Milei mantém um alinhamento político e de segurança com os Estados Unidos, e recebeu apoio financeiro e simbólico de Washington, ao mesmo tempo em que tenta preservar a relação com Pequim.
Em outubro, o governo argentino recebeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões, um forte endosso em momento de crise política e cambial, segundo a reportagem.
Analistas citados pela matéria apontam o contraste entre o alinhamento com os EUA e a necessidade de laços econômicos com a China. Patricio Giusto afirmou, à AFP, que “esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”.
Florencia Rubiolo, do Insight 21, chamou a Argentina de “um país-chave no hemisfério” na busca de liderança que Trump conduz, e alertou para a tensão entre interesses geopolíticos e econômicos.
Como Milei tenta conciliar interesses
Milei diz que a relação econômica com a China não conflita com seu alinhamento com os EUA, afirmando em Davos que “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados” e que isso “não entra em conflito” com sua posição pró-EUA.
O governo facilitou a entrada de produtos chineses no mercado argentino, e as importações “door to door”, lideradas por Temu e Shein, cresceram 274,2% em 2025, segundo dados oficiais.
Exemplos concretos dessa aproximação incluem a chegada de cerca de 5 mil carros elétricos da BYD em janeiro e investimentos em campos de xisto como Vaca Muerta, que atraem interesse tanto de Pequim quanto de visitantes americanos.
Para Rubiolo, traduzindo declaração original, “para a Argentina, romper laços con la China es absolutamente impracticable, porque la China es una partenaire insustituible”, ou seja, “para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, porque a China é uma parceira insubstituível”.
O futuro do equilíbrio é incerto
O ponto central é se Milei conseguirá manter separadas a relação econômica com a China e o alinhamento geopolítico com os EUA ao longo do tempo, sobretudo se Washington passar a condicionar também o comércio.
Giusto resume a dúvida, à AFP, dizendo que “o dilema é saber se essa separação pode se sustentar ao longo do tempo”, destacando que pressões externas e interesses econômicos conflitantes podem testar a estratégia do governo argentino.
O desfecho dessa equação terá impacto direto em investimentos, na segurança regional e na capacidade da Argentina de gerir reservas, comércio e autonomia nas decisões econômicas.