Milei, China e Trump: o dilema argentino entre manter o swap de US$ 5 bilhões, ampliar comércio de lítio e soja e não desagradar a pressão dos EUA
Milei enfrenta a difícil tarefa de combinar interesses comerciais com a China, como lítio e soja, e o alinhamento geopolítico com Donald Trump, sob forte pressão dos EUA
O presidente argentino, Javier Milei, sinalizou que pretende visitar a China ainda este ano, em meio à crescente pressão do governo do presidente americano Donald Trump para reduzir a influência chinesa nas Américas.
Milei mudou o tom desde a campanha, quando prometeu que não faria “negócios com a China” nem “com nenhum comunista”, e passou a adotar uma postura mais pragmática diante de vínculos econômicos importantes.
O dilema chega no momento em que a Argentina renovou uma parte ativa do acordo de swap cambial com a China, no valor equivalente a US$ 5 bilhões, e tenta conciliar essa necessidade com o alinhamento com os EUA, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a China é estratégica para a Argentina
A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e investe em energia, lítio e infraestrutura. O comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, Indec.
Além disso, segundo dados citados, em 2025, 70% das exportações argentinas para a China foram de soja, carne bovina e lítio, mostrando forte complementaridade econômica entre os países.
Instrumentos financeiros e sinais de pragmatismo
Uma medida concreta da aproximação foi a renovação do swap cambial com a China, no valor equivalente a US$ 5 bilhões, uma ferramenta usada para reforçar reservas e estabilizar a moeda, prioridade do governo Milei.
Ao mesmo tempo, a abertura econômica facilitou a entrada de produtos de consumo chineses, e em 2025 as importações “door to door”, lideradas por Temu e Shein, cresceram 274,2%, segundo números oficiais.
Em janeiro, por exemplo, chegaram cerca de 5 mil carros elétricos da marca chinesa BYD, um sinal de integração comercial que reforça o pragmatismo econômico do governo.
Pressão dos EUA e alinhamento com Trump
Milei mantém um alinhamento firme com os Estados Unidos, que têm buscado reduzir a presença chinesa na região por meio da chamada “Doutrina Donroe”, conforme analistas citados.
Washington ofereceu apoio financeiro relevante à Argentina, incluindo uma linha de ajuda de US$ 20 bilhões, e estreitou cooperações militares e estratégicas, com visitas de comandantes do Comando Sul e parlamentares americanos a bases e a Vaca Muerta.
Autoridades americanas também deixaram claro que não querem “outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, frase atribuída ao secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em referência ao contexto da ajuda.
Como Milei tenta conciliar interesses e quais os riscos
Milei tem argumentado que a relação econômica com a China não entra em conflito com o alinhamento político com os EUA, dizendo em Davos que “a China é uma grande parceira comercial” e que busca uma “economia aberta”.
Analistas alertam, porém, que separar completamente laços comerciais de alinhamento geopolítico pode ser difícil se Washington passar a impor condições ao comércio, destacando o risco de tensões futuras.
O dilema central é se a Argentina conseguirá manter investimentos e mercados chineses, como no lítio e na agroindústria, sem perder o apoio estratégico e financeiro dos EUA, cenário que pode moldar escolhas políticas e econômicas nos próximos anos.