Milei e China, o país enfrenta o desafio de conciliar acordos comerciais com Pequim, como o swap de US$5 bilhões e exportações de soja, carne e lítio, com o alinhamento geopolítico junto a Trump e os EUA
A intenção de Javier Milei de visitar a China reacendeu um debate sobre até que ponto Buenos Aires pode estreitar laços com Pequim sem atrair críticas de Washington.
Durante a campanha de 2023 Milei dizia que não faria “negócios com a China” nem “com nenhum comunista”, porém, no governo, adotou medidas pragmáticas, como renovar um swap cambial de US$5 bilhões em 2024 e 2025.
O impasse entre interesses comerciais e pressão política externa levanta dúvidas sobre a sustentabilidade dessa separação entre economia e geopolítica, conforme informação divulgada pelo G1.
O peso econômico da China para a Argentina
A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, atrás apenas do Brasil, e tem participação crescente no comércio bilateral. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado.
Em 2025, 70% das exportações argentinas para a China foram de soja, carne bovina e lítio, setores cruciais para a economia do país. Além disso, a abertura comercial facilitou a entrada de produtos chineses de consumo, e as importações “door to door”, lideradas por Temu e Shein, cresceram 274,2% em 2025, segundo dados oficiais.
O governo também renovou a parte ativa de um swap cambial com a China no valor equivalente a US$5 bilhões, uma medida importante para reforçar reservas internacionais, objetivo central da gestão de Milei.
O alinhamento com os EUA e a “Doutrina Donroe”
Ao mesmo tempo em que busca relações pragmáticas com a China, Milei manteve um alinhamento firme com a administração de Donald Trump. Washington tem pressionado aliados a reduzir a presença chinesa na região, em um movimento que analistas chamam de releitura da Doutrina Monroe, apelidada de “Doutrina Donroe”.
O apoio de Washington à Argentina se materializou também em ajuda financeira, com uma linha de crédito de US$20 bilhões concedida em outubro, um reforço importante em meio a crises políticas e cambiais, segundo reportagens sobre o tema.
Autoridades americanas, como o então secretário do Tesouro Scott Bessent, declararam que “não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, frase que ilustra a percepção de risco de Washington sobre a influência chinesa.
Além de apoio financeiro, militares e parlamentares dos EUA visitaram bases e campos de exploração estratégicos na Argentina, como a base em construção em Ushuaia e o campo de xisto de Vaca Muerta, reforçando a presença e o interesse americano na região.
Como Milei tenta equilibrar pragmatismo e ideologia
Milei afirmou em Davos que “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados”, e que isso “não entra em conflito” com seu alinhamento com os Estados Unidos. Ele também enfatizou: “Governo para 47,5 milhões de argentinos e tomo as decisões que melhor beneficiam os argentinos”, e declarou, “Quero uma economia aberta”.
Para analistas, a tensão vem da tentativa de separar a relação econômica da agenda geopolítica. Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino-Argentino, avalia que “esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”.
Florencia Rubiolo, do centro Insight 21, observa que “para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, porque a China é uma parceira insubstituível”, destacando a complementaridade econômica entre os dois países.
Cenários, riscos e possíveis desdobramentos
O dilema de Milei e China tem várias saídas possíveis, todas com custos. Um cenário é a manutenção do pragmatismo comercial, conciliando swaps e investimentos, enquanto fortalece laços políticos e militares com os EUA, o que pode gerar atritos diplomáticos com Washington.
Outra possibilidade é que os Estados Unidos passem a condicionar mais explicitamente o apoio financeiro e político a restrições quanto ao comércio, o que testaria a capacidade argentina de conservar autonomia econômica sem perder ajuda estratégica.
Em resumo, a Argentina precisa equilibrar a dependência econômica de Pequim, notável em setores-chave como soja, carne e lítio, com a necessidade de manter o apoio político e financeiro dos EUA, um jogo de alto risco que poderá definir a posição do país no mapa geopolítico das Américas nos próximos anos.