quinta-feira, junho 4, 2026

Milei negociar com a China sem desagradar a Trump, o dilema entre swaps, lítio, exportações e a pressão dos EUA na América Latina

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Milei negociar com a China, swap de US$ 5 bilhões, US$ 20 bilhões de ajuda dos EUA, e o desafio de conciliar vínculos comerciais com alinhamento pró‑EUA

O presidente argentino Javier Milei diz querer manter um alinhamento firme com os Estados Unidos, enquanto reforça laços comerciais com a China, principal parceira em investimentos estratégicos.

O impasse ganhou novo fôlego quando Milei anunciou, no início de janeiro, plans para visitar Pequim ainda este ano, apesar da pressão de Washington para reduzir a influência chinesa nas Américas.

Conforme informação divulgada pelo g1.

Por que a China é indispensável para a Argentina

A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e ampliou investimentos em energia, lítio e infraestrutura, o que torna a relação difícil de romper por razões econômicas.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, o comércio com Pequim representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado, dados que mostram a profunda integração comercial entre os países.

Em 2025, 70% das exportações argentinas para a China foram de soja, carne bovina e lítio, e a abertura econômica facilitou a entrada de bens de consumo chineses, com compras porta a porta crescendo 274,2% no ano, segundo dados oficiais.

Instrumentos financeiros e cooperação prática

Milei passou a adotar uma postura pragmática após prometer na campanha não “fazer negócios com a China”, e renovou em 2024 e 2025 a parte ativa do acordo de swap cambial com Pequim, no valor equivalente a US$ 5 bilhões.

O swap, uma troca temporária de moedas para reforçar reservas internacionais, é central para a estratégia de Milei de estabilizar a economia, enquanto a chegada de cerca de 5 mil carros elétricos da BYD e investimentos em Vaca Muerta mostram a dimensão prática dessa parceria.

Pressão dos EUA e a ‘Doutrina Donroe’

Ao mesmo tempo, Milei tem alinhamento manifesto com a administração Trump, que busca reduzir a presença chinesa na região por meio de uma releitura da Doutrina Monroe, apelidada de “Doutrina Donroe”.

Em outubro, a Argentina recebeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões de Washington, e o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou na época, “Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, comentário que ilustra a preocupação americana sobre influência chinesa.

Durante o mandato de Milei, dois comandantes do Comando Sul dos EUA visitaram uma base argentina em construção em Ushuaia, e parlamentares americanos também vistoriaram a região e o campo de xisto de Vaca Muerta, em momentos de competição estratégica no Atlântico Sul e no Polo Sul.

O cálculo político de Milei e os limites da separação entre comércio e geopolítica

Milei afirma que “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados”, e que isso “não entra em conflito” com seu alinhamento com os Estados Unidos, declaração feita em Davos em janeiro.

Analistas apontam, no entanto, que há um conflito intrínseco entre alinhamento geopolítico pró‑EUA e o aprofundamento de laços econômicos com Pequim. Para Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino‑Argentino, “esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”.

Florencia Rubiolo, diretora do centro de análises Insight 21, ressalta a complementaridade econômica entre Argentina e China e afirma que, “Para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, porque a China é uma parceira insubstituível”.

O dilema de Milei negociar com a China sem desagradar a Trump, portanto, envolve decisões sobre reservas cambiais, acesso a mercados para commodities estratégicas, e a eventual imposição de condições comerciais por parte dos EUA no futuro.

Resta saber se Milei conseguirá manter uma separação sustentável entre interesses econômicos e alinhamento geopolítico, ou se a crescente pressão americana acabará impondo limites às negociações com Pequim.

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