Moratória da soja em risco, tradings como ADM, Bunge e Cargill podem abandonar pacto para não perder incentivos fiscais em Mato Grosso

A possível saída das tradings da moratória da soja, para preservar incentivos fiscais em Mato Grosso, pode enfraquecer a proteção contra o desmatamento e alterar regras do mercado

Algumas das maiores tradings globais de soja avaliam deixar a moratória da soja para não perder benefícios fiscais concedidos pelo estado de Mato Grosso.

O movimento ocorreria depois da entrada em vigor, a partir de janeiro, de uma norma estadual que retira incentivos de empresas que participam do protocolo de conservação.

O cenário pode reduzir salvaguardas ambientais adotadas desde 2006, com impactos sobre a Amazônia e a cadeia internacional de soja, conforme informação divulgada pelo g1.

Por que as empresas avaliam sair da moratória da soja

Segundo apuração, tradings como ADM, Bunge, Cargill, Cofco e Amaggi, signatárias do acordo, estudam romper o compromisso para manter benefícios fiscais que ajudaram a reduzir custos operacionais em Mato Grosso.

De acordo com o g1, “A partir de janeiro, o estado passará a retirar incentivos fiscais de empresas que participam do programa de conservação”. A retirada dos incentivos é vista como pressão econômica direta sobre as signatárias.

Um relatório preliminar de auditores estaduais, citado pelo g1, apontou que as tradings “se beneficiaram de incentivos fiscais de aproximadamente R$ 4,7 bilhões entre 2019 e 2024“. Ainda segundo o veículo, “ADM e Bunge foram as maiores beneficiárias dos incentivos fiscais, recebendo cerca de R$ 1,5 bilhão cada uma“, segundo Sérgio Ricardo, presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso.

O que a moratória da soja protege e o que pode mudar

A moratória da soja, firmada em 2006, impede que empresas signatárias comprem soja produzida em áreas desmatadas após julho de 2008, criando um filtro comercial que desacelerou a perda de cobertura florestal na Amazônia.

Pesquisadores estimam que, sem a moratória e iniciativas relacionadas, uma área da floresta do tamanho da Irlanda teria sido convertida em lavouras de soja no Brasil, quando comparado ao ritmo de expansão observado em países vizinhos.

Se as empresas deixarem o pacto, ambientalistas alertam que o fim da moratória pode abrir caminho para o desmonte de outras salvaguardas ambientais, incluindo dispositivos do Código Florestal que restringem derrubadas na Amazônia.

Consequências políticas, legais e de mercado

O governo federal recorreu à Justiça contra a lei de Mato Grosso que retira benefícios fiscais de tradings por compromissos ambientais, e autoridades ambientais avaliam o impacto da possível saída das empresas.

Segundo fontes citadas pelo g1, “A maioria das empresas vai preferir não perder os incentivos fiscais e se retirar do acordo”, e essa decisão, segundo o ministério do Meio Ambiente, pode ocorrer por razões econômicas.

Além disso, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, Cade, abriu investigação sobre a moratória por possível violação de regras de concorrência, e determinou que as empresas “se abstenham de coletar, armazenar, compartilhar ou divulgar informações comerciais relacionadas à venda, produção ou aquisição de soja”.

Em decisões liminares, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino “suspendeu a investigação antitruste, mas permitiu que a lei de Mato Grosso entrasse em vigor”, segundo o g1, o que mantém a norma estadual enquanto a disputa judicial prossegue.

O que observar nos próximos meses

O estado de Mato Grosso produziu cerca de 51 milhões de toneladas métricas de soja em 2025, mais do que a Argentina, conforme o g1, o que torna a decisão das tradings relevante para a economia local e global.

Ambientalistas pedem que as empresas mantenham compromissos de desmatamento zero, como afirmou Cristiane Mazzetti, do Greenpeace, “As empresas poderiam optar por manter seus compromissos de desmatamento zero”, e alertam que a saída da moratória representa um precedente perigoso em contexto de emergência climática.

Com o avanço das disputas judiciais e a pressão política local, a tendência e o timing das decisões das tradings definirão se a moratória da soja será enfraquecida, ou se resistirá como um dos pilares de controle do desmatamento na Amazônia.