Natal: Fé, Cultura ou Rejeição? Descubra Por Que Milhões de Brasileiros Não Celebram a Data Mais Famosa do Ano

Natal: Fé, Cultura ou Rejeição? Descubra Por Que Milhões de Brasileiros Não Celebram a Data Mais Famosa do Ano

Para a maioria dos brasileiros, o fim de dezembro é sinônimo de fartura à mesa, reencontros familiares e a troca de presentes. Contudo, uma parcela significativa da população passa o dia 24 de dezembro como qualquer outro dia do calendário, sem as tradicionais celebrações natalinas.

As razões para essa escolha são as mais diversas, abrangendo desde convicções religiosas e diferenças culturais até experiências pessoais marcadas por conflitos e rejeição dentro do próprio núcleo familiar. Essa diversidade de perspectivas sobre o Natal reflete a pluralidade da sociedade brasileira.

Conforme informação divulgada pelo G1, o Natal, que para muitos representa um momento de união e celebração, pode ser visto de outra forma por aqueles que não compartilham das mesmas tradições. Exploraremos os diferentes motivos que levam pessoas a não celebrar essa data tão popular.

Razões Religiosas: Uma Escolha de Fé

Para muitas denominações cristãs, o Natal não é uma data a ser comemorada. A médica Flávia Raquel Teodoro Rotiroti, da Congregação Cristã no Brasil, explica que a ausência da celebração se dá pela falta de base bíblica para a comemoração do nascimento de Jesus em 25 de dezembro. “Não existe em nenhum lugar da Bíblia dizendo que o dia 25 de dezembro é o nascimento de Jesus. Historicamente também não seria essa data. É uma celebração comercial, cheia de questões simbólicas, como o Papai Noel”, afirma.

Elaine Cristina dos Santos Barboza, Testemunha de Jeová, compartilha da mesma visão. Ela não comemora o Natal há 28 anos, após iniciar seus estudos bíblicos. “Antes, eu sempre comemorava com os familiares. Quando comecei a estudar a Bíblia, aprendi que essa festa não tem a ver com o nascimento de Jesus Cristo. Ele nos mandou comemorar sua morte, não seu nascimento”, relata.

O sociólogo Clemir Fernandes, diretor adjunto do Instituto de Estudos da Religião (Iser), contextualiza que o Natal nem sempre teve a centralidade que possui hoje no cristianismo. Ele aponta que, enquanto a Páscoa é celebrada desde o primeiro século, o Natal só possui registros históricos a partir do quarto século. “Portanto, não é estranho que alguns grupos cristãos não celebrem oficialmente o Natal, o que não significa que não façam festejos em família”, observa.

Culturas Distintas e o Reinventar das Celebrações

Fora do contexto cristão, o Natal não faz parte das tradições. Em países islâmicos, como Indonésia e Turquia, Jesus é reconhecido como profeta, mas não como figura divina, com celebrações principais focadas no Eid al-Fitr e Eid al-Adha. No budismo, predominante em países como China e Japão, Jesus é visto como um ser de grande sabedoria, mas seu nascimento não é celebrado, tendo o Vesak como data principal.

Para os judeus, Jesus existiu, mas não é o Messias, e a principal festa do período é o Hanukah, a Festa das Luzes. No hinduísmo, as celebrações são ligadas a diferentes divindades e energias, como Diwali e Holi. O Natal, assim como no taoismo e xintoísmo, tem, no máximo, um caráter comercial.

O professor e escritor indígena Yaguarê Yamã menciona que, em algumas tradições indígenas, existe o **Çuriçawara**, que significa “o dia da felicidade”. Trata-se de uma data ancestral que celebra alegria, amizade e comunhão entre humanos e espíritos da floresta.

O Lado Pessoal: Desafetos e a Busca por Sinceridade

Nem sempre a não celebração do Natal está atrelada à religião. A enfermeira Nathalia Bastos expressa seu descontentamento com a data, “Não vejo sinceridade em comemorar o nascimento de uma pessoa que foi crucificada e continua sendo crucificada todos os dias”, desabafa.

Nathalia relata ter vivenciado comentários cruéis de familiares e acredita que o Natal pode expor hipocrisias. “Muitas vezes eu era a crucificada. Poderiam começar vivendo o que o aniversariante ensinou: amar o próximo, sem julgamentos”, afirma. O sociólogo Clemir Fernandes corrobora que, cada vez mais, o Natal se afasta de seu sentido religioso, tornando-se uma celebração de “comida, bebida, presentes e encontros familiares, com alegrias e também conflitos”.

Adaptando para as Crianças: Explicando e Criando Novas Tradições

Para famílias que não celebram datas tradicionais, o desafio é explicar essa escolha às crianças. Elaine conta que seus filhos cresceram sem sentir falta do Natal, pois já estavam inseridos na religião. “E a gente celebra muito no decorrer do ano. Nos reunimos para fazer brincadeiras, festas, alugamos salão, chácaras. E todas as crianças acabam se divertindo muito. Então, não tem nem como sentir falta disso”, comenta.

Flávia também não isola seus filhos, que se encantam com as luzes e decorações. “Se eles perguntarem, eu explico que nossa religião não comemora o Natal. Mas não vejo problema nenhum em fazer uma decoração. Eu senti falta disso quando era criança”, diz. Elaine ainda ressalta que presentear sem uma data comercial determinada torna a surpresa ainda mais divertida.