Nova reforma da Previdência precisa ser pensada agora, RGPS com déficit crescente, INSS e Tesouro apontam informalidade, benefícios indexados e envelhecimento
Por que a reforma da Previdência deve entrar na agenda imediata, diante da queda da arrecadação, benefícios indexados ao salário mínimo e envelhecimento da população
A discussão sobre a reforma da Previdência volta a ganhar força, mesmo dez anos após a última mudança, por causa de três fatores combinados que pressionam as contas públicas.
Há sinais claros de retração na arrecadação, crescimento das despesas e um cenário demográfico que tende a reduzir a relação entre contribuintes e beneficiários nas próximas décadas.
O conjunto de dados e declarações dos especialistas e de autoridades indica que o tema terá de ser debatido em breve, conforme informação divulgada pelas fontes recebidas.
Pressões imediatas, arrecadação em queda e informalidade
Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que colocar a mais para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões. A maior parte desse dinheiro foi para cobrir o déficit do RGPS, mais de R$ 320 bilhões, R$ 17 bilhões a mais do que em 2024.
Especialistas apontam que a alta informalidade do mercado de trabalho e novas formas de ocupação que não recolhem para a Previdência, como trabalhadores de aplicativo, explicam parte da retração da arrecadação.
Bernardo Schettini, consultor do Senado, sintetizou o problema, afirmando, “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência“.
Benefícios indexados ao salário mínimo, despesas em ritmo maior que a arrecadação
Outro fator de pressão é a política de valorização do salário mínimo, que eleva as despesas em ritmo superior ao da inflação, porque mais de 60% dos benefícios são indexados ao piso nacional.
O crescimento contínuo das despesas da Previdência também fica claro nas contas de uma década, quando o déficit da previdência, em valores de janeiro de 2026, saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025.
Segundo análises, a receita do RGPS cresceu em média 1,82% a.a., em termos reais, nos últimos 10 anos, enquanto a despesa cresceu cerca de 3,37% a.a., quase o dobro.
Envelhecimento demográfico, menos contribuintes e projeções para 2070
O envelhecimento da população e a queda da natalidade agravam o quadro no médio e longo prazo, reduzindo a relação entre ativos e inativos no sistema de repartição.
Como alertou o consultor da Câmara dos Deputados, Leonardo Rolim, “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000“.
Rolim destacou ainda que, nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou, gerando um descompasso que pressiona o modelo atual.
Crescimento do número de benefícios e o impacto nas contas
O total de beneficiários também aumentou de forma consistente. “O total, há 10 anos, em 2015, era de 28,3 milhões de beneficiários. Atualmente, em 2025, totalizou 35,2 milhões. Quando se olha o crescimento, anualmente, o volume de benefícios emitidos é de 2,21% a.a., em média“, afirmou Pedro Souza, analista da IFI.
Segundo ele, o crescimento do volume de benefícios e das despesas teve impacto direto no financiamento insuficiente do modelo, com a despesa total atingindo R$ 1,04 trilhão em 2025.
O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, já afirmou que “o sistema previdenciário brasileiro está pressionado e que o tema precisará ser discutido“, indicando que o governo reconhece a necessidade de debate sobre mudanças futuras.
O que muda no debate sobre a reforma da Previdência
As informações reunidas mostram que a discussão sobre uma nova reforma da Previdência não decorre apenas de projeções de longo prazo, mas de tendências atuais, como a informalidade e o aumento do número de beneficiários.
Qualquer proposta terá de enfrentar escolhas difíceis, entre aumentar a arrecadação, alterar regras de benefícios, rever indexações ao salário mínimo ou repensar o modelo de custeio do sistema.
O ponto central é que, sem ajustes, as pressões identificadas pelos especialistas e pelas contas públicas apontam para um rombo crescente nas próximas décadas, tornando a pauta da reforma da Previdência urgente para o debate público e legislativo.