O que Putin quer para acabar com a guerra na Ucrânia? Analistas revelam exigências e os próximos passos da Europa e EUA

O que Putin quer para acabar com a guerra na Ucrânia? Analistas revelam exigências e os próximos passos da Europa e EUA

Enquanto as negociações de paz avançam em Berlim, o que pode mudar a posição de Putin sobre a guerra na Ucrânia? E como a Europa poderia agir de forma diferente? A situação no campo de batalha e as relações diplomáticas parecem ter virado a maré a favor do presidente russo, Vladimir Putin.

Para alguns analistas, Putin não tem incentivo para recuar de suas exigências. Estas incluem a Ucrânia abrir mão dos 20% finais da região de Donetsk que ainda controla, o reconhecimento internacional de todos os territórios ocupados como russos, a redução do Exército ucraniano a um patamar inoperante e o descarte definitivo da adesão à Otan.

Diante desse cenário, desfechos possíveis incluem um cessar-fogo imposto pelos EUA em condições desfavoráveis à Ucrânia, o afastamento dos EUA do conflito, ou a continuidade da guerra com avanços lentos das forças russas. Conforme informação divulgada pelo g1, a nova estratégia de segurança nacional do governo Trump sugere que a Rússia deixou de ser uma “ameaça existencial” aos EUA.

As exigências de Putin e os possíveis desfechos da guerra

A posição de Vladimir Putin parece inabalável, com exigências claras para o fim do conflito. A Ucrânia precisaria ceder território, aceitar o reconhecimento internacional das áreas ocupadas como russas e desmilitarizar suas forças. O afastamento dos Estados Unidos do conflito, sinalizado por Donald Trump, pode pressionar ainda mais Kiev.

Um cenário possível é que Trump tente impor um cessar-fogo em termos desfavoráveis à Ucrânia, com cessão de território e sem garantias de segurança adequadas. Se a Ucrânia resistir ou a Rússia vetar o acordo, Trump pode se afastar, suspendendo o acesso da Ucrânia a informações de inteligência vitais. Outra possibilidade é a prolongação da guerra, com avanços graduais russos no leste.

Como a Europa pode agir de forma diferente no conflito

A Europa se prepara para um cessar-fogo, articulando uma força militar internacional para dissuadir futuras invasões e um esforço financeiro para a reconstrução. No entanto, alguns avaliam que a Europa deveria se preparar para a continuidade do conflito, oferecendo apoio de longo prazo à Ucrânia.

A ideia seria fornecer mais drones e recursos financeiros para as batalhas imediatas, além de apoio de longo prazo para um confronto que poderia durar de 15 a 20 anos com a Rússia. A expansão da proteção do espaço aéreo ucraniano contra drones e mísseis, através da European Sky Shield Initiative, é outra possibilidade.

Alguns defendem o envio de tropas europeias para patrulhar fronteiras no oeste da Ucrânia, liberando soldados ucranianos para a linha de frente. Keir Giles, pesquisador sênior associado do programa Rússia e Eurásia do centro de estudos Chatham House, considera esses receios absurdos, argumentando que tropas ocidentais já estão em solo ucraniano e o plano Sky Shield poderia ser implantado com pouca chance de confronto com aeronaves russas.

Sanções, economia russa e o papel da China na guerra

A economia russa sofre com sanções, apresentando inflação de 8% e juros de 16%. Um relatório da Peace and Conflict Resolution Evidence Platform indica que a economia de guerra russa tem menos capacidade de financiar o conflito do que no início. Empresas russas, contudo, têm driblado restrições, como o transporte de petróleo em “navios fantasmas”.

Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do Royal United Services Institute, critica a comunicação confusa do Ocidente sobre as sanções. Ele sugere um embargo total ao petróleo russo e a aplicação integral de sanções secundárias contra países que o compram. A pesquisa do Centro Russo de Pesquisa da Opinião Pública mostra que 56% dos entrevistados estão “muito cansados” do conflito, mas o consenso é que a população russa apoia a estratégia de Putin.

A União Europeia considera usar cerca de € 200 bilhões em ativos russos congelados para um “empréstimo de reparação” à Ucrânia, mas hesita devido a riscos legais e financeiros, com a Bélgica temendo processos e a França preocupada com a estabilidade da zona do euro. A China, por sua vez, é um fator imprevisível. Se Pequim concluir que a guerra não atende mais aos seus interesses, terá influência significativa sobre o Kremlin. A Rússia depende de fornecimentos chineses de bens de uso duplo.

A questão do alistamento militar na Ucrânia e o futuro demográfico

A Ucrânia, apesar de possuir o segundo maior Exército da Europa, enfrenta dificuldades para defender sua extensa linha de frente. O cansaço dos soldados e o aumento das taxas de deserção são preocupações. Recrutadores enfrentam dificuldades para preencher vagas, com homens mais jovens se escondendo para escapar do alistamento ou deixando o país.

Kiev optou por não ampliar as leis de conscrição para homens mais jovens, de 25 a 60 anos, buscando preservar a população para o futuro demográfico do país, devido à baixa taxa de natalidade e milhões de cidadãos no exterior. Fiona Hill, pesquisadora sênior do Centro para os EUA e Europa da Brookings Institution, considera essa uma lição da história, evitando o declínio populacional que afetou impérios europeus.

Ataques em profundidade e o caminho diplomático para a paz

A Ucrânia intensificou ataques aéreos contra alvos na Rússia, atingindo mais de 50 instalações de combustível e infraestrutura militar-industrial. Drones ucranianos atingiram ao menos uma vez mais da metade das principais refinarias da Rússia, causando interrupções na produção e racionamento de combustível em alguns postos.

Mick Ryan, ex-major-general do Exército australiano, afirma que ataques em profundidade são importantes, mas insuficientes para levar Putin à mesa de negociações ou vencer a guerra. Sidharth Kaushal, pesquisador sênior em ciências militares, alerta que essa tática pode ser contraproducente, reforçando o argumento russo de que uma Ucrânia independente representa uma ameaça militar significativa.

Ainda existe um caminho diplomático. Analistas sugerem que Putin pode aceitar uma saída honrosa, com um cessar-fogo ao longo da linha de contato, áreas desmilitarizadas e sem formalização do reconhecimento territorial. Esse acordo exigiria um envolvimento firme dos EUA, com equipes de negociação e o uso do peso americano para viabilizar um entendimento. Thomas Graham argumenta que os Estados Unidos precisam mobilizar sua influência psicológica sobre a Rússia.