Caso expõe esquema em que recrutadores prometem trabalho no exterior, cobram milhares de dólares e mantêm vítimas em cativeiro, com poucas condenações
Foday Musa, pai de dois jovens desaparecidos há dois anos, viajou da Guiné até Serra Leoa, na esperança de encontrá-los, após denúncias de que tinham sido aliciados por supostos recrutadores.
Ele recebeu uma mensagem de voz de 76 segundos do filho, que chorava e pedia socorro, e diz que ainda sente dor ao ouvir a gravação, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”.
O caso foi acompanhado por uma unidade policial especializada e pela Interpol em Serra Leoa, em operações contra redes que usam o nome QNET como fachada para tráfico humano, conforme informação divulgada pelo g1
A busca de Foday Musa e a operação policial
Musa participou de batidas policiais em Makeni, acompanhado por agentes da unidade contra o tráfico de pessoas, na tentativa de localizar os filhos, recrutados em fevereiro de 2024 na região de Faranah, na Guiné.
Na operação, equipes encontraram dezenas de jovens em condições precárias, com bolsas e roupas espalhadas pelos quartos, e estimaram que havia entre 10 e 15 pessoas dormindo em cada cômodo.
Um jovem afirmou que os filhos de Musa haviam estado no local na semana anterior, o que representaria o primeiro possível avistamento em um ano.
Como funciona o golpe ligado à QNET
Na África Ocidental, gangues prometem emprego nos Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e Europa, e cobram quantias altas para taxas administrativas antes da viagem, representando um esquema de tráfico humano oculto sob um modelo de recrutamento.
A prática inclui levar as vítimas a países vizinhos, exigir que recriem outras pessoas para viabilizar a saída, e usar passaportes e documentos falsos para convencer famílias de que a viagem realmente ocorreu.
A própria QNET veicula campanhas locais com o slogan “QNET contra os golpes” e nega ligação com as gangues que usam seu nome como fachada.
Depoimentos de vítimas e formas de exploração
Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, contou que pagou US$ 1 mil para participar do programa e acabou retida por cerca de um ano, sendo obrigada a se prostituir para sobreviver, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Ela descreve ainda que os recrutadores dão aparência de viagem, fornecem roupas e documentos falsos, e chegam a orientar as vítimas a enviar fotos para enganar amigos e parentes, “Eles levam você para o aeroporto com boas roupas, como se estivesse a ponto de viajar, Dão um passaporte e documentos de viagem falsos”.
Muitas vítimas voltam para casa envergonhadas, sem contar às famílias a verdade sobre o que se passou, como ocorreu com a filha de Musa, que regressou à Guiné e não quis falar com o pai.
Escalada do problema e falta de responsabilização
As ações policiais têm resultado em resgates, e, segundo relato das autoridades, “a polícia informou ter realizado mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas.”
No entanto, a justiça tarda, e a impunidade persiste, refletida em dados internacionais, “Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas, afirmou que os pontos de travessia ilegais facilitam a ação dos traficantes e que o caso de Musa foi tratado como prioritário pela Interpol em Serra Leoa.
Musa resume a angústia de muitas famílias, “Meu coração está destruído”, e acrescenta, “Não consigo parar de chorar, Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor.” Ele ainda aguarda notícias do filho desaparecido, enquanto a região enfrenta um dilema entre operações de resgate e o baixo número de condenações.