Pai da Guiné busca filhos desaparecidos em rede de tráfico de pessoas ligada a golpe QNET, família pagou US$ 25 mil e polícia de Serra Leoa faz batidas
Pai viajou a Makeni, Serra Leoa, para tentar localizar dois filhos recrutados por um esquema que usa o nome QNET para aliciar vítimas, com apoio da Interpol e polícia local
Foday Musa não vê os filhos há dois anos, ele recebeu uma última mensagem de 76 segundos em que o filho chorava e pedia ajuda, e a espera continua devastadora para a família.
O pai viajou até Makeni, no centro de Serra Leoa, para participar de uma batida policial em busca dos jovens, após o caso chegar à Interpol na Guiné e ser tratado por uma unidade especializada local.
O caso é parte de um padrão maior de **tráfico de pessoas** na África ocidental, em que gangues se aproveitam do nome QNET para atrair vítimas com falsas promessas de emprego no exterior, conforme informação divulgada pelo g1
Como funciona o golpe e o uso do nome QNET
Na região, criminosos se apresentam como recrutadores da QNET, uma empresa legítima criada em Hong Kong, e prometem vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, pedindo valores altos para cobrir taxas administrativas.
Segundo relatos obtidos pela cobertura, as vítimas pagam para participar do programa e, em muitos casos, são levadas para países vizinhos, mantidas em cativeiro ou obrigadas a recrutar novos candidatos para poderem viajar.
O esquema inclui, entre outros métodos, o envio de passaportes e documentos falsos, e a criação da aparência de que a pessoa já está no exterior, com números de telefone internacionais para contato.
A operação em Makeni e os relatos dos resgatados
Durante uma batida em Makeni, a polícia encontrou dezenas de jovens em condições precárias, com bolsas e roupas espalhadas, e relatos de que havia entre 10 e 15 pessoas dormindo em cada quarto.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, afirmou, em entrevista, que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, descrevendo a mobilidade das gangues na fronteira.
Na operação, muitos resgatados eram guineanos, alguns tinham apenas 14 anos, e 19 pessoas foram repatriadas à Guiné após a triagem realizada pela polícia.
Relatos de vítimas e o custo humano do esquema
Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), soma que incluía taxas de inscrição e pagamentos extras na tentativa de obter o retorno dos filhos.
Uma mulher identificada como Aminata, nome fictício para preservar a identidade, contou que pagou US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) e foi mantida em cativeiro, onde foi forçada a sobreviver recorrendo a exploração sexual, ela relatou que “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
O caso mostra como o golpe mistura fraude financeira, coerção e exploração física, e como as vítimas frequentemente sentem vergonha e evitam contato com parentes ao retornarem, como ocorreu com a filha de Musa, que voltou à Guiné e não quis falar com o pai.
Contexto de impunidade e desafios para combater o tráfico de pessoas
A cobertura aponta que, embora a polícia de Serra Leoa faça operações regulares e tenha realizado mais de 20 batidas no último ano, a condenação dos traficantes é rara, em parte por limitações de recursos e por processos complexos.
Dados citados na reportagem indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”, destacando o desafio de levar os responsáveis à justiça.
Enquanto isso, famílias como a de Musa seguem sem respostas sobre o paradeiro de entes queridos, e organizações de segurança local e internacional continuam as investigações, com foco em desarticular redes que se servem do nome QNET para atrair e traficar pessoas.
O caso de Musa ilustra o impacto humano do **tráfico de pessoas**, o uso de esquemas de recrutamento falso e a urgência de ações coordenadas entre países para investigação, resgate e responsabilização dos criminosos.