quinta-feira, junho 4, 2026

Pai da Guiné busca filhos desaparecidos em rede de tráfico humano ligada ao golpe QNET, viagem à Serra Leoa com Interpol, US$ 25 mil pagos e relatos de abuso

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Relato de Foday Musa descreve recrutadores que prometeram empregos no exterior, exigiram US$ 25 mil e levaram jovens a cativeiro em Serra Leoa, revelando a dimensão do tráfico humano

Foday Musa não vê seus filhos há dois anos, depois que recrutadores prometeram oportunidades de trabalho no exterior e os levaram para além da fronteira, onde ficaram retidos.

Em busca de respostas, ele viajou até Makeni, em Serra Leoa, e participou de operações policiais que resgataram dezenas de jovens, sem contudo localizar todos os desaparecidos.

O caso expõe como grupos usam o nome QNET para acionar um esquema de tráfico humano, e mobilizou a Interpol local e uma unidade especializada na cidade, conforme informação divulgada pelo g1

A busca de um pai e a batida em Makeni

Ao ouvir a última mensagem de voz do filho, Foday Musa diz, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói“, e afirma que o sofrimento é visível em seus olhos.

Em fevereiro de 2024, recrutadores prometeram vagas para o filho de 22 anos e para a filha de 18, além de outros cinco moradores da aldeia na região de Faranah, na Guiné.

Preço pedido aos familiares, segundo o relato, chegou a US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), que incluiu taxas de inscrição e pagamentos feitos para tentar trazer os jovens de volta.

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, classificou o caso como prioritário, e alertou que os traficantes exploram pontos de travessia ilegais entre países.

Como funciona o golpe QNET na África ocidental

A QNET é uma empresa legítima, fundada em Hong Kong, que vende produtos por meio de assinaturas e revenda online, mas na África ocidental gangues se apropriaram do nome QNET para encobrir recrutamentos fraudulentos.

Os criminosos prometem empregos nos Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, exigem pagamentos iniciais e, após a coleta de dinheiro, muitas vezes levam as vítimas para países vizinhos onde as mantêm em cativeiro.

A empresa real lançou campanhas locais com o slogan “QNET contra os golpes” e negou qualquer ligação com o tráfico, enquanto cartazes e anúncios tentam alertar populações vulneráveis.

Relatos de vítimas e estruturas de coação

Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, descreveu o processo de recrutamento, a exigência inicial de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) e a ilusão de um curso antes da viagem para os Estados Unidos.

Ela relatou que, com o tempo, a atenção dos recrutadores diminuiu, e que passou a ser forçada a “vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, até perceber que o trabalho não existia.

Os traficantes costumam exigir que as vítimas recrutem outras pessoas, e dão telefones internacionais e documentos falsos para simular que já estão no exterior, reforçando a fraude.

Resgates, devoluções e a realidade da impunidade

A polícia de Serra Leoa informou que fez mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas, e que em uma operação na casa em Makeni havia entre 10 e 15 pessoas dormindo por quarto.

Do grupo encontrado em Makeni, a maioria era da Guiné, e alguns tinham apenas 14 anos, segundo a unidade da Interpol que coordenou as ações.

Em uma das batidas, o jovem que estava com Musa informou que os filhos do pai haviam estado no local na semana anterior, mas ao final da operação apenas 19 pessoas foram devolvidas à Guiné.

Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.

Musa voltou para a Guiné sem os filhos, e a filha que retornou não quis falar com o pai, ilustrando a vergonha e o isolamento que muitas vítimas enfrentam.

O paradeiro do filho de Musa permanece desconhecido, e as autoridades admitem a dificuldade em obter condenações firmes, pela limitação de recursos e pela complexidade das redes transnacionais.

O que especialistas e famílias pedem

Familiares e ativistas pedem maior cooperação regional, capacitação das polícias locais e campanhas de prevenção para alertar sobre os métodos de recrutamento, os pagamentos exigidos e os sinais de fraude.

Para vítimas que voltam, é necessário apoio psicológico, proteção contra estigmas e programas que facilitem a reintegração social, uma vez que muitos temem o retorno por vergonha ou receio de represálias.

O caso de Foday Musa escancara como o tráfico humano se mistura a golpes financeiros e a estruturas ilícitas, e reforça a urgência de respostas coordenadas entre países e organismos internacionais.

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