Pai da Guiné busca filhos desaparecidos vítimas de tráfico humano ligado a golpe QNET, resgate em Serra Leoa expõe esquema, custos e impunidade
Investigação em Serra Leoa mostra como o golpe da QNET transforma promessas de emprego no exterior em tráfico humano, com vítimas recrutadas na Guiné e mantidas em cativeiro
Um pai da Guiné viajou até Serra Leoa para tentar encontrar dois filhos que desapareceram após serem aliciados por supostos recrutadores que prometiam trabalho no exterior.
O caso revela um esquema onde grupos criminosos usam o nome da empresa QNET como fachada, cobrando altas taxas e retendo jovens em condições degradantes, e levanta dúvidas sobre a eficiência das investigações e das condenações.
Conforme informação divulgada pelo g1
A promessa que virou armadilha
Em fevereiro de 2024, agentes que diziam representar oportunidades de trabalho no exterior recrutaram o filho de 22 anos e a filha de 18 anos de Foday Musa, na região de Faranah, na Guiné, além de outras cinco pessoas da mesma aldeia.
A família pagou, ao todo, US$ 25 mil, cerca de R$ 130 mil, entre taxas de inscrição e valores extras, com a esperança de que os jovens seguiriam para países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa.
A QNET, empresa criada em Hong Kong, é descrita como legítima, dedicada ao bem-estar e estilo de vida, e nega ligação com o tráfico, enquanto cartazes com o slogan “QNET contra os golpes” tentam alertar a população da África ocidental sobre criminosos que usam o nome da companhia como cobertura.
Operação de resgate e pistas em Makeni
Musa foi à cidade de Makeni, no centro de Serra Leoa, e participou de uma batida policial após a Interpol local receber denúncias sobre um grande número de jovens retidos em um imóvel.
Na ação, a polícia encontrou bolsas e roupas espalhadas, com cerca de 10 a 15 pessoas por quarto, incluindo menores de 14 anos, e identificou que a maioria das vítimas era proveniente da Guiné.
Os agentes reuniram os detidos para triagem, e 19 pessoas foram levadas de volta para a Guiné, mas os filhos de Musa não foram encontrados no local. Um jovem, no entanto, afirmou que eles tinham estado ali na semana anterior, o que representou o primeiro possível avistamento em um ano.
Relatos de exploração e coerção
Vítimas que escaparam ou foram resgatadas relatam que, após o período inicial em que os recrutadores forneciam alimentação e documentos falsos, as condições se tornavam degradantes e havia pressão para recrutar outras pessoas.
A jovem identificada como Aminata contou que pagou US$ 1 mil para participar do programa e acabou retida por cerca de um ano nos arredores de Freetown, onde foi forçada a se submeter a prostituição para sobreviver, segundo ela, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Os traficantes, conforme os relatos, davam passaportes falsos e orientavam as vítimas a enviar fotos e mensagens simulando que já estavam no exterior, para convencer familiares e amigos a também se inscreverem.
Impunidade e desafios das autoridades
A unidade policial antidrogas e de tráfico de pessoas em Serra Leoa afirma ter realizado mais de 20 batidas no ano passado, resgatando centenas de vítimas e efetuando prisões, mas a justiça tem punido poucos envolvidos.
O chefe de investigações da unidade da Interpol na polícia de Serra Leoa, Mahmou Conteh, alertou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, o que facilita a movimentação e o ocultamento das redes criminosas.
Dados citados pela investigação indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.
O apelo do pai e as consequências nas famílias
Foday Musa descreve a dor ao ouvir uma mensagem de voz do filho, ele diz, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói”, e afirma, “Meu coração está destruído”, enquanto busca respostas sobre o paradeiro dos dois filhos.
A filha de Musa, segundo a apuração, retornou para outro local da Guiné e não quis dar entrevistas, e não manteve contato com o pai, o que evidencia a vergonha que muitas vítimas sentem após passar pelo golpe.
O paradeiro do filho permanece desconhecido, e Musa conclui pedindo que tudo termine para que possa rever a família, ele diz, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, e, “Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo”.
O caso expõe a combinação de promessas fraudulentas, exploração e a dificuldade em transformar operações policiais em processos e condenações, deixando milhares de famílias na incerteza sobre entes queridos atraídos por esquemas como o da QNET e outras redes de tráfico humano na região da África ocidental.