Pai da Guiné busca filhos vítimas de tráfico humano ligado a esquema QNET em Serra Leoa, relata batidas, resgates e falhas que alimentam impunidade
Em Makeni, ele participou de operações com a Interpol, ouviu a última mensagem do filho e descreve pagamentos e promessas falsas feitos por criminosos que usam o nome QNET
Foday Musa não vê os filhos há dois anos, e guarda uma mensagem de voz de 76 segundos em que o jovem chora e pede ajuda, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, disse ele sobre a gravação.
Musa viajou da Guiné para Serra Leoa em busca dos filhos, participou de batidas policiais e entregou às autoridades informações para tentar localizá-los.
O caso é um exemplo de como redes criminosas recrutam jovens com promessas de emprego no exterior, e como famílias pagam muito para tentar trazê-los de volta, conforme informação divulgada pelo g1.
A operação de resgate e o primeiro contato
A ação em Makeni foi coordenada por uma unidade da polícia de Serra Leoa que trabalha com a Interpol, e terminou com várias pessoas resgatadas de locais onde eram mantidas em condições precárias.
Ao participar da batida, Musa encontrou bolsas e roupas espalhadas, ambientes superlotados, e ouviu de um jovem que seus filhos haviam estado ali na semana anterior, um possível avistamento após um ano sem notícias.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.
Como os criminosos operam usando o nome QNET
O golpe prometia trabalho nos Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, e as vítimas eram orientadas a pagar taxas adiantadas para cobrir supostos custos administrativos.
Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), entre taxas de inscrição e valores pagos depois para tentar libertar os filhos.
Segundo relatos de vítimas, os recrutadores usavam o nome da empresa legítima QNET como fachada, e, para convencer as pessoas, ofereciam passaportes falsos, roupas novas e até números internacionais para criar a ilusão de que a vítima já estava no exterior.
Depoimentos das vítimas
Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, contou que pagou US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) e passou meses retida em condições que se deterioraram, até que a sobrevivência exigiu esforços humilhantes.
Ela relatou, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, descrevendo a violência econômica e sexual sofrida enquanto era mantida pelos traficantes.
Musa disse também, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”, e, mais adiante, resumiu sua dor, “Meu coração está destruído”.
Contexto de impunidade e desafios das autoridades
A polícia informou ter realizado “mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas” em operações na região de Makeni.
No entanto, a resposta judicial é limitada, e a denúncia de abuso se choca com processos lentos e poucos réus condenados, o que alimenta a continuidade dos golpes.
Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
Após as ações em Makeni, 19 jovens foram devolvidos à Guiné, mas o filho de Musa permanece desaparecido, enquanto a filha voltou a outro local da Guiné e não procurou o pai, o que evidencia a vergonha que muitas vítimas sentem.
Musa resumiu seu desejo em palavras simples, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, e, “Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo.”
As investigações continuam, mas famílias como a de Musa enfrentam relatos de engano, sofrimento e uma sensação forte de impunidade em um esquema que explora a esperança de jovens por trabalho fora de suas regiões.