Pai da Guiné busca filhos vítimas de tráfico humano ligado ao esquema QNET, pagou US$ 25 mil, participou de batida em Serra Leoa e denuncia impunidade
Caso de Musa revela recrutadores que prometiam empregos nos EUA e Europa, cobravam altas taxas, levavam jovens a Serra Leoa e deixavam famílias sem notícias por meses
Tráfico humano volta ao centro das atenções com a história de Musa, homem da Guiné que perdeu o contato com dois filhos após esquema de recrutamento que se dizia ligado à QNET.
Ele diz que o filho de 22 anos e a filha de 18 foram atraídos em fevereiro de 2024, e que a família pagou, ao todo, US$ 25 mil, cerca de R$ 130 mil, em taxas e tentativas de resgate.
O caso mobilizou unidades da Interpol em Serra Leoa e levou a batidas em Makeni, mas o filho de Musa segue desaparecido, e a dor do pai é grande, “Meu coração está destruído“, ele afirma.
conforme informação divulgada pelo G1.
A operação de resgate em Makeni
Em agosto do ano passado, Musa viajou até Makeni, no centro de Serra Leoa, após a Interpol na Guiné pedir apoio à unidade local, segundo relatos à imprensa.
A batida policial encontrou bolsas e roupas espalhadas, com estimativas de 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto, e vítimas com idades a partir de 14 anos.
O chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas, Mahmou Conteh, disse, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“, e que a maioria dos resgatados era guineana.
Como funciona o golpe associado à QNET
Ao longo da África ocidental, gangues usam o nome da QNET, empresa legítima de Hong Kong, como cobertura para recrutar jovens com promessas de trabalho em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa.
As vítimas pagam taxas administrativas e, após o pagamento, muitas vezes são levadas a países vizinhos, onde ficam retidas e obrigadas a recrutar outras pessoas. Mesmo quando recrutam amigos e familiares, o trabalho anunciado nunca se materializa.
A própria QNET lançou anúncios regionais com o slogan “QNET contra os golpes”, negando vínculo com o tráfico, e tentando alertar sobre criminosos que se fazem passar por recrutadores.
Depoimentos, exploração e sequelas
A jovem identificada como Aminata relatou que, depois de pagar US$ 1 mil, cerca de R$ 5,2 mil, passou a ser explorada, e que os recrutas chegaram a dizer que ela precisava angariar novas pessoas para poder viajar.
Ela descreve que, com o tempo, os recrutadores deixaram de sustentar as vítimas, e que precisou sobreviver, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“, relato que mostra a violência e a humilhação enfrentadas por muitos.
Musa afirma que ouviu o filho em gravação, e que “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói“, demonstrando o desespero de familiares que buscam respostas.
Impunidade e desafios das autoridades
Embora as operações tenham resgatado centenas de vítimas e a polícia informe ter feito mais de 20 batidas no ano anterior, os números de condenações seguem baixos.
Segundo estatísticas do Departamento de Estado americano, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime“.
A polícia relata ter detido 12 suspeitos no total, e que 19 vítimas resgatadas em Makeni foram levadas de volta à Guiné, mas muitos casos ainda não chegam à condenação, e as investigações enfrentam falta de recursos.
Para famílias como a de Musa, a busca continua, e a falta de informação e de respostas perpetua o sofrimento. Ele espera apenas que um dia possa ver os filhos de volta à aldeia, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos“, disse ele.