Homem cruza fronteira e se junta à polícia em Makeni para tentar encontrar dois filhos, com o caso ilustrando a amplitude do tráfico humano na região
Um pai da Guiné viajou até Serra Leoa em busca de dois filhos desaparecidos, depois de pagar uma quantia significativa a recrutadores que prometiam emprego no exterior, e acabou participando de uma operação policial para tentar localizá-los.
Na ação, agentes encontraram dezenas de jovens retidos em um imóvel em Makeni, e algumas das vítimas tinham apenas 14 anos, mas os filhos do homem não foram encontrados durante a batida.
Os detalhes do caso e os relatos das vítimas mostram como gangues usam nomes de empresas legítimas para disfarçar o tráfico humano e explorarem pessoas vulneráveis, conforme informação divulgada pelo g1.
A busca em Makeni e o relato do pai
Foday Musa, o pai, descreve a dor de ouvir a última mensagem de voz enviada por seu filho, ele disse, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói”. O áudio de 76 segundos revela um jovem em desespero, pedindo ajuda.
Musa afirma, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”. Em fevereiro de 2024, recrutas prometendo trabalho no exterior levaram seu filho de 22 anos e sua filha de 18, além de outras cinco pessoas, da aldeia na região de Faranah, na Guiné, atravessando a fronteira até Serra Leoa.
Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), incluindo taxas de inscrição e valores pagos posteriormente na tentativa de trazer os jovens de volta, segundo os relatos obtidos pela reportagem.
Como a operação policial encontrou vítimas e o papel da Interpol
A Interpol na Guiné encaminhou o caso à unidade especializada de Serra Leoa, e, em agosto, a polícia recebeu um aviso sobre um local em Makeni onde muitos jovens estariam retidos.
Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol dentro da polícia de Serra Leoa, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.
Na batida do imóvel, a polícia encontrou bolsas e roupas espalhadas, com cerca de 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto, e constatou que a maioria era da Guiné, “A maioria é da Guiné”, segundo Conteh. Entre os resgatados havia menores, alguns com 14 anos.
O imóvel batido não continha os filhos de Musa, mas uma testemunha disse que eles tinham estado no local na semana anterior, o que representaria o primeiro possível avistamento em um ano. Ao todo, a polícia afirmou ter realizado mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas.
O esquema por trás do golpe e o uso do nome QNET
Milhares de pessoas na África ocidental são enganadas pelo esquema conhecido por usar o nome QNET como fachada. A QNET é uma empresa criada em Hong Kong que, em tese, vende produtos e permite que pessoas se registrem para revendê-los online.
Na região, entretanto, gangues criminosas usam o nome da empresa para prometer vagas no exterior, pedem pagamentos adiantados e, depois do depósito, levam as vítimas para países vizinhos ou mantêm-nas em cativeiro até que elas recrutem outras pessoas.
A própria QNET lançou campanhas com o slogan “QNET contra os golpes” e nega vínculo com o tráfico de pessoas, enquanto as autoridades tentam identificar quando o nome da empresa é usado como cobertura por criminosos.
Depoimentos de vítimas e a exploração sexual
Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, contou que foi recrutada por supostos representantes da QNET e que pagou US$ 1 mil para participar do programa. Ela relatou, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Segundo Aminata, os recrutadores inicialmente dão comida e aparentam cuidado, mas depois abandonam as vítimas à própria sorte. Eles também entregam passaportes e documentos falsos, tiram fotos para mostrar aos familiares e instruem que, para viajar, a vítima precisa recrutar outras pessoas.
Aminata chegou a recrutar seis familiares e amigos, ainda acreditando que viajaria para os Estados Unidos, mas acabou ficando retida quase um ano nos arredores de Freetown antes de perceber que o emprego jamais ocorreria.
Impunidade e obstáculos para condenações
Apesar das operações e de prisões pontuais, a Justiça enfrenta dificuldades para condenar responsáveis. Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022, quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa, e abril de 2025, “apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.
Autoridades locais relatam falta de recursos, pontos de travessia fronteiriços informais e dificuldade em proteger testemunhas e vítimas, fatores que ajudam a explicar a baixa taxa de condenação.
No caso de Musa, a polícia disse que os traficantes liberaram a filha pouco tempo depois da batida, e a BBC confirmou que a jovem voltou para outro local da Guiné, sem querer dar entrevista, o que ilustra a vergonha e o estigma enfrentados por muitas vítimas.
O paradeiro do filho de Musa permanece desconhecido, e o pai voltou à Guiné no final de setembro sem os filhos, afirmando que, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, e, “Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo”.
O que dizem as autoridades e o que falta
Investigadores destacam a necessidade de cooperação regional, maior fiscalização de pontos de fronteira e campanhas que alertem comunidades vulneráveis sobre os sinais do golpe, especialmente o uso do nome de empresas como fachada.
Enquanto isso, famílias continuam a pagar quantias altas e a viajar à procura de respostas, e relatos como o de Musa e Aminata mostram que o tráfico humano na África ocidental envolve tanto exploração transfronteiriça quanto abusos dentro dos próprios países.
Especialistas afirmam que, além de ações policiais, é preciso intensificar a assistência às vítimas, proteger quem denuncia e acelerar processos judiciais para reduzir a sensação de impunidade e impedir que novos recrutamentos prosperem.