Pai da Guiné busca filhos vítimas de tráfico humano, QNET usada como fachada na Serra Leoa, Interpol e polícia realizam batidas e revelam impunidade

Investigação em Makeni mostra recrutamento por promessas de emprego, cobrança de grandes quantias e cativeiro, enquanto famílias e autoridades enfrentam o avanço do tráfico humano

Foday Musa não vê os filhos há dois anos, desde que eles foram atraídos por promessas de trabalho no exterior, e viajou até Serra Leoa para tentar encontrá-los.

O pai recebeu uma mensagem de voz de 76 segundos em que o filho chora e suplica por ajuda, uma gravação que, segundo Musa, ainda o destrói emocionalmente.

A busca envolveu uma unidade policial especializada que participou de batidas em residências em Makeni, onde foram encontradas dezenas de jovens em condições de cativeiro.

conforme informação divulgada pelo g1.

Como o golpe funciona e o papel da QNET

Criminosos prometem vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, e se apresentam como recrutadores de uma empresa legítima, a QNET, que atua com venda direta e produtos de bem-estar.

No entanto, segundo a apuração, gangues usam o nome da QNET como cobertura para atrair candidatos, exigem pagamentos altos para taxas administrativas e depois levam as vítimas para outros países ou locais onde são mantidas em cativeiro.

As pessoas pagam grandes quantias, esperam o embarque e, em vez disso, são pressionadas a recrutar amigos e parentes, sob a promessa de que só assim poderão viajar.

A operação em Makeni e o relato das vítimas

A Interpol na Guiné pediu apoio à unidade de Serra Leoa, e a polícia realizou batidas em residências na cidade de Makeni, encontrando, em alguns quartos, entre 10 e 15 pessoas dormindo, com bolsas espalhadas pelo chão.

Durante uma ação em agosto, a polícia reuniu dezenas de jovens, alguns com apenas 14 anos, e encaminhou 19 deles de volta à Guiné, embora os filhos de Musa não tenham sido localizados naquele momento.

Musa relata, em tom de dor, que ‘meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los’, e diz que ‘meu coração está destruído’, ao lembrar a última mensagem do filho.

Depoimentos, exploração e retorno

Uma jovem identificada como Aminata contou que pagou cerca de US$ 1 mil para participar do programa e foi submetida a uma rotina em que, com o tempo, os recrutadores reduziram assistência e a forçaram a ‘vender seu corpo’ para sobreviver.

Ela disse que recebeu documentos e passagens falsos, e que os traficantes deram um número internacional para que parecesse que ela já estava no exterior, fotos eram tiradas para convencer familiares e amigos.

Aminata conseguiu recrutar seis parentes e conhecidos, e ficou retida quase um ano em um local nos arredores de Freetown, até perceber que o emprego prometido nunca viria.

Impunidade e desafios das autoridades

O caso de Musa faz parte de um padrão maior na África ocidental, onde milhares de pessoas são enganadas por esquemas semelhantes, e a investigação apontou jovens de países como Burkina Faso, Guiné, Mali e Costa do Marfim retidos em residências na região.

Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.

Autoridades locais relatam limitações de recursos para investigar e processar redes transnacionais que operam por meio de pontos de travessia ilegais, enquanto vítimas muitas vezes evitam contato com familiares por vergonha, como no caso da filha de Musa, que voltou a outro local na Guiné e não quis dar entrevista.

Para muitas famílias, a única opção é continuar a busca, apoiar rescates pontuais e pressionar por investigações mais profundas, enquanto organizações policiais e internacionais tentam mapear redes e realizar prisões, sem, porém, conseguir converter a maioria dos casos em condenações.