Pai viajou até Serra Leoa para acompanhar batidas em busca dos filhos, após pagar US$ 25 mil a supostos recrutadores, e as investigações apontam jovens retidos em casas na periferia de Makeni
Foday Musa não vê os filhos há dois anos, e a última mensagem de voz que recebeu do filho o deixou devastado, segundo relatos obtidos pela imprensa.
O pai descreve angústia constante, ele afirma que a situação transformou a rotina da família e o levou a procurar a polícia internacional para tentar encontrá-los.
No relato que acompanhou as ações policiais em Serra Leoa, há indícios de um esquema que usa o nome de uma empresa legítima como cobertura, e vítimas foram mantidas em cativeiro, conforme informação divulgada pelo g1
Como o golpe funciona e o papel da QNET
O esquema promete empregos no exterior e exige pagamentos adiantados, depois os recrutadores levam os candidatos para casas na cidade vizinha, e, em muitos casos, o trabalho nunca acontece.
Segundo o material apurado, a QNET é uma empresa legítima de Hong Kong, mas gangues na África ocidental usam seu nome como fachada, oferecendo vagas para destinos como Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, e cobrando taxas elevadas.
Familiares de vítimas entregaram aos criminosos US$ 25 mil em um caso, dinheiro que incluiu taxas de inscrição e quantias para tentar trazer os jovens de volta, segundo relatos da reportagem.
Batidas em Makeni e o esforço da polícia
A Interpol na Guiné encaminhou o caso da família de Musa à unidade especializada em Serra Leoa, e, em agosto do ano passado, houve uma operação em Makeni, no interior do país.
Na casa revistada, policiais encontraram dezenas de pessoas, com bolsas e roupas espalhadas, e estimaram que havia entre 10 e 15 pessoas por quarto, alguns com jovens de apenas 14 anos.
A polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas, e ter detido 12 supostos traficantes em investigações na região.
Depoimentos das vítimas
Foday Musa descreve a dor de ouvir o filho, ele disse, na reportagem, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, e também afirmou “Meu coração está destruído”.
Outra sobrevivente, identificada como Aminata, contou que pagou cerca de US$ 1 mil para participar do programa e foi pressionada a recrutar familiares e amigos para poder viajar.
Aminata relatou que, com o tempo, as condições pioraram, e ela precisou se prostituir para sobreviver, citando, na entrevista, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Impunidade e desafios para condenações
As investigações enfrentam limitações estruturais na região, e poucas prisões resultam em condenações definitivas, segundo o levantamento citado pela reportagem.
O texto traz que, “Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
Apesar das operações e de prisões locais, muitas vítimas não retornam imediatamente às famílias, por vergonha ou medo, e alguns suspeitos são liberados por falta de provas robustas.
Situação atual da família e próximos passos
Musa não encontrou os filhos na casa batida em Makeni, porém ouviu que eles haviam passado pelo local, e a polícia acredita que os jovens foram libertados pouco depois.
A filha de Musa voltou a outro local da Guiné e não quis falar com o pai, evidenciando a vergonha que muitas vítimas sentem.
O paradeiro do filho permanece desconhecido, e o pai declarou que só quer, após tudo o que viveu, “ver meus filhos” de volta à aldeia, pedindo que o sofrimento termine.
As investigações continuam em Serra Leoa e em países vizinhos, com autoridades tentando identificar as redes e aumentar a responsabilização de criminosos que se passam por recrutadores da QNET.