Pai da Guiné descreve busca desesperada por filhos vítimas de tráfico de pessoas ligado à QNET, Interpol e batidas em Serra Leoa revelam pagamentos de até US$ 25 mil
O relato de Musa, a operação da Interpol em Makeni e depoimentos de vítimas mostram como o esquema de tráfico de pessoas ligado à QNET opera na região
Musa, agricultor da região de Faranah, na Guiné, viajou até Serra Leoa em busca dos dois filhos desaparecidos, depois de receber juras de emprego no exterior que jamais se concretizaram.
Familiares pagaram o equivalente a US$ 25 mil aos recrutas, que prometiam vagas nos Estados Unidos, Canadá, Dubai e Europa, e acabaram por levar as vítimas para cativeiro em outro país.
O caso foi acompanhado por ação da polícia local e da Interpol, em operações que resgataram centenas de vítimas, conforme informação divulgada pelo g1.
A busca de Musa e a operação policial em Makeni
Musa assistiu a um vídeo de 76 segundos em que um jovem chora e pede pela ajuda do pai. Ele descreve a dor que sente, dizendo, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, e lamenta, “Meu coração está destruído”.
A denúncia do desaparecimento dos filhos foi acolhida pela Interpol na Guiné, que acionou a unidade contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa. Em agosto, Musa participou de uma batida em Makeni com policiais locais, coordenados por Mahmou Conteh.
Segundo Conteh, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”. A equipe encontrou alojamentos superlotados, com bolsas e roupas no chão, e menores de idade entre as vítimas.
O método do golpe, uso do nome QNET e a rota do tráfico
O esquema se apoia no nome da empresa legítima QNET, criada em Hong Kong, que tem modelo de venda direta e campanhas públicas negando envolvimento em golpes. Gangues locais, no entanto, usam essa marca como cobertura para recrutar e cobrar altas taxas.
Recrutadores pedem valores para taxas administrativas, em seguida transferem as pessoas para países vizinhos, sob o pretexto de que a viagem só será possível depois de trazer mais recrutas.
Vítimas recebem documentos falsos, roupas e fotos para enganar familiares, e quando percebem que não viajarão, muitas são obrigadas a sobreviver em condições degradantes.
Depoimentos de vítimas e custo humano
Aminata, nome fictício de uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, conta que pagou US$ 1 mil para participar de um curso que lhe prometia passagem para os Estados Unidos. Depois, foi mantida praticamente em cativeiro.
Ela relata que, com o tempo, a alimentação e o cuidado cessaram, e passou a ser forçada a “vender seu corpo e dormir com homens” para obter dinheiro e se manter. Aminata também foi pressionada a recrutar familiares e amigos.
Muitos retornam enfrentando estigma, porque a família e a comunidade acreditam que a pessoa chegou ao exterior. No caso de Musa, a filha voltou a outro ponto da Guiné e não quis dar entrevista, enquanto o paradeiro do filho é, até agora, desconhecido.
Impunidade, número de batidas e dificuldades das autoridades
A polícia de Serra Leoa informou ter realizado mais de 20 batidas no ano passado, resgatando centenas de vítimas e prendendo 12 suspeitos. Ainda assim, poucas investigações chegam a condenações.
As autoridades enfrentam falta de recursos e dificuldades nas fronteiras. Dados citados indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.
Para famílias como a de Musa, as ações policiais trazem esperança, mas não garantem respostas rápidas. Ele voltou para a Guiné sem os filhos e aguarda notícias, dizendo que só quer “que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”.
Casos como este revelam a combinação de promessas falsas, redes transnacionais e fragilidade institucional que alimentam o tráfico de pessoas na África Ocidental, e apontam para a necessidade de investigação, cooperação internacional e apoio às vítimas.