Pai da Guiné faz busca desesperada por filhos vítimas de tráfico humano ligado a golpe QNET, operação policial em Serra Leoa e impunidade contra traficantes

Pai percorre Serra Leoa em busca dos filhos desaparecidos após pagamento, revelando o alcance do tráfico humano e as dificuldades das investigações na região

Um homem da Guiné viajou até Makeni, em Serra Leoa, para tentar encontrar dois filhos recrutados por um esquema que prometia trabalho no exterior, sem sucesso.

Durante operações policiais, dezenas de jovens foram resgatados de casas usadas como alojamento forçado, muitos deles vindos de países vizinhos.

O caso expõe como o tráfico humano age na África ocidental, e as barreiras à responsabilização dos criminosos.

conforme informação divulgada pelo g1

A busca pessoal e a denúncia

O pai afetado, Foday Musa, relatou, em mensagem citada pela reportagem, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”.

Ele disse ainda que ouvir a última mensagem de voz do filho, de 76 segundos, foi doloroso, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, e descreveu seu sofrimento em frases como “Meu coração está destruído”, “Não consigo parar de chorar, Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor”.

Musa e a família entregaram aos supostos recrutadores, de acordo com o relato, “US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil)” para cobrir taxas e tentativas de repatriação.

Como agia o esquema e o uso do nome QNET

Criminosos ofereciam vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e na Europa, cobrando altas quantias para supostas taxas administrativas.

O modelo de fachada usado por essas quadrilhas frequentemente envolve o uso do nome da empresa QNET, que é legítima, mas teve seu nome aproveitado por golpistas na região.

As vítimas recebiam documentos falsos, fotos para enganar familiares, e ordens para recrutar outras pessoas como condição para viajar, conforme os relatos das vítimas.

Relatos de vítimas e exploração

Uma jovem identificada como Aminata contou que pagou cerca de US$ 1 mil para participar do programa, e que, com o tempo, os recrutadores deixaram de prover alimentação e apoio.

Ela descreveu pressões para que vendesse o próprio corpo, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, e disse ter sido forçada a recrutar familiares e amigos.

Aminata relatou ainda que foi mantida quase um ano na periferia de Freetown até entender que a promessa de trabalho no exterior não se realizaria.

Operações policiais e números apontando impunidade

A unidade da Interpol em Serra Leoa participou de batidas em imóveis onde jovens eram alojados, encontrando quartos com 10 a 15 pessoas, e até menores de 14 anos.

Em uma das ações descritas, a polícia recolheu os ocupantes e levou parte deles de volta ao país de origem, “19 deles foram levados de volta para a Guiné”.

Apesar de prisões, a responsabilização é limitada, e, segundo a reportagem, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.

O chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas na polícia de Serra Leoa, Mahmou Conteh, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.

Consequências para famílias e desafios para a prevenção

Após participar de uma batida em Makeni, Musa não encontrou os filhos, embora um jovem tenha dito que eles estiveram no local na semana anterior, o que representaria o último possível avistamento.

Segundo a apuração, a filha de Musa retornou a outro lugar da Guiné, ela não quis dar entrevista e não contatou o pai, evidenciando a vergonha que muitas vítimas sentem.

O paradeiro do filho permanece desconhecido, e Musa reclama: “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, ele afirmou que gostaria que eles “voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo”.

Especialistas e autoridades apontam que a prevenção depende de ações coordenadas entre países, maior empenho no fechamento de rotas de atuação das quadrilhas, e recursos para investigação e proteção de vítimas.

O caso ilustra como o tráfico humano operado sob fachadas de oportunidades profissionais afeta comunidades, gera perdas financeiras significativas, e esbarra em uma realidade de baixa taxa de condenação na região.